No primeiro dia em que Isabela se mudou, ela já começou a comandar os empregados para redecorar toda a sala de estar.
"Este jogo de sofás é muito monótono." Seus dedos finos acariciaram levemente o couro legítimo e ela lançou um sorriso doce para Henrique. "Henrique, que tal trocarmos por um conjunto em tom off-white?"
Henrique nem sequer piscou e ordenou diretamente ao mordomo: "Faça como a Srta. Isabela desejar."
Clarice observava do canto da escada enquanto os funcionários retiravam o sofá que ela havia escolhido minuciosamente há apenas seis meses.
Vitor e Alice seguiam Isabela como duas pequenas sombras, apontando e comentando com empolgação: "Tia Bela, tem que trocar essas almofadas também! As que a mamãe comprou são horrorosas!"
Isabela acariciou a cabeça deles com ternura: "Está bem, vamos trocar tudo."
Os dedos de Clarice se curvaram levemente, mas logo relaxaram.
Aquelas almofadas tinham sido costuradas à mão por ela, ponto por ponto, durante a gravidez. O enchimento era de algodão antialérgico especial, escolhido justamente porque a pele deles era sensível quando bebês.
Agora, elas eram jogadas impiedosamente na caçamba de lixo.
Nos dias seguintes, aquela casa tornou-se cada vez mais estranha.
À mesa de jantar, Isabela sentava-se no lugar que pertencia a Clarice, servindo gentilmente a comida para as duas crianças.
Ocasionalmente, Henrique servia uma xícara de café para ela pessoalmente, empurrando-a com seus dedos longos, com uma suavidade no olhar que Clarice jamais havia recebido.
À noite, as luzes da sala diminuíam e os quatro se amontoavam no sofá para assistir a filmes.
Alice se encolhia no colo de Isabela, Vitor se apoiava no ombro de Henrique e o som das risadas era constante.
Quando Clarice passava por eles, ninguém sequer a olhava; era como se ela fosse um ser invisível.
O mais irônico era que, antigamente, Henrique, Vitor e Alice eram absurdamente exigentes com a qualidade de vida.
Mas e agora?
Ela via Isabela jogar displicentemente o Patek Philippe de milhões de Henrique sobre a mesa de centro, com o visor para baixo, e ele apenas aceitava com um olhar de adoração. Via as crianças irem felizes para a escola usando uniformes que Isabela jogava de qualquer jeito na máquina de lavar, com as golas ainda manchadas com o molho do dia anterior. Via Isabela despejar comida de delivery nos pratos e mentir dizendo que ela mesma havia cozinhado, sem que ninguém a desmascarasse.
Mais absurdo ainda era como eles a colocavam em um pedestal:
"Bela, não toque nesse trabalho pesado." Henrique interrompeu Isabela quando ela ia recolher o jogo de chá, pressionando levemente o pulso dela com seus dedos. "Suas mãos foram feitas para tocar piano."
"Tia Bela, eu carrego a bolsa para você!" Vitor pegou apressadamente a bolsa de edição limitada de Isabela. Clarice nunca tinha visto seu filho agir de forma tão servil com ela própria.
"A Srta. Isabela só precisa descansar." O mordomo entregou respeitosamente os chinelos italianos feitos à mão. "Deixe o resto conosco."
Que sarcasmo.
Ela atuou como a governanta daquela casa por seis anos e eles eram cegos para isso.
Bastou Isabela chegar para se tornar a princesa adorada por todos.
Os empregados fofocavam abertamente nos corredores.
"O patrão é tão bom para a Srta. Isabela, nunca o vi tratar a patroa assim."
"As crianças também não desgrudam dela. Do jeito que as coisas vão, logo a casa terá uma nova dona!"
Clarice já estava com o coração sem vida; não perguntava nem interferia em nada, apenas empacotava suas coisas em silêncio.
Até que, naquela tarde, seu celular começou a vibrar freneticamente.
"Patroa! O menino e a menina tiveram uma crise alérgica na escola! A ambulância acabou de levá-los para o hospital!"
Quando Clarice chegou ao hospital, as duas crianças já haviam sido levadas para a sala de emergência.
Henrique estava parado no corredor, o paletó pendurado displicentemente no braço e a gravata frouxa no pescoço. Seus olhos transbordavam uma fúria gélida.
"Clarice." A voz dele era profunda, carregada de uma raiva contida. "O que diabos você está fazendo?"
Clarice estancou: "O quê?"
"Eles têm alergia a manga, você não sabia?" Henrique deu um passo à frente, sua figura alta projetando uma sombra sobre ela. "Por que deu suco de manga para eles?"
"Não fui eu!" Clarice sustentou o olhar dele. "Eu nunca compro manga para casa."
Desde que as crianças foram internadas pela primeira vez por comerem manga, ela se tornou extremamente cautelosa, instruindo repetidamente a todos que não dessem a fruta a eles. Ela chegava a revisar pessoalmente o cardápio da cantina da escola. Como poderia cometer um erro tão primário?
"Não foi você?" Henrique soltou uma risada fria. "Quem foi então? Os empregados? Ou eles resolveram procurar a própria morte?"
Clarice abriu a boca para responder, mas a enfermeira abriu a porta naquele momento: "As crianças acordaram."
No quarto, Vitor e Alice estavam deitados na cama, pálidos. Ao verem os pais entrarem, seus olhares vacilaram por um instante.
"O que aconteceu?" Henrique perguntou com voz severa.
As duas crianças se entreolharam e, subitamente, apontaram juntas para Clarice: "Foi a mamãe! Tinha manga nos doces que ela comprou!"
Clarice paralisou, olhando para eles sem conseguir acreditar no que ouvia: "O que vocês estão dizendo?"