Desde que o acordo de divórcio foi assinado, Clarice parou de cuidar das tarefas domésticas.
Ela não acordava mais às cinco da manhã para preparar cafés da manhã nutritivos para as crianças, nem esperava por Henrique até tarde da noite para preparar um chá de ressaca após seus compromissos de negócios.
Aquelas tarefas que antes ela considerava sua obrigação agora eram inteiramente delegadas aos empregados.
A princípio, ninguém notou a diferença.
Até que Vitor se atrasou para a escola e foi repreendido pelo professor, o caderno de Alice sumiu e o relógio de bolso de Henrique parou de funcionar.
Os empregados estavam sobrecarregados e confusos, mas não conseguiam atingir o padrão de perfeição da patroa.
Pratos sujos acumulavam-se na cozinha, brinquedos das crianças estavam espalhados pela sala e as camisas passadas nunca pareciam alinhadas o suficiente.
Aquela casa, que antes funcionava com a precisão de uma engrenagem, transformava-se gradualmente em um caos.
Quando Henrique abriu a porta do quarto, Clarice estava encostada à janela lendo um livro.
A luz do sol filtrava-se pelas cortinas de gaze, projetando sombras suaves sobre ela.
"Até quando você vai continuar com esse drama?" Ele parou à porta, com a voz grave.
Clarice fechou o livro e ergueu o olhar para ele: "Não estou fazendo drama."
"Então por que parou de cuidar das coisas da casa?" Ele deu alguns passos à frente, e o leve aroma de âmbar-cinzento que emanava dele espalhou-se pelo ar. "Ainda está zangada pelo que aconteceu da última vez?"
"Não estou zangada." Ela colocou o livro de lado. "Apenas não quero mais cuidar disso."
Henrique estreitou os olhos, batendo os dedos longos levemente sobre a mesa: "O motivo."
"Estou cansada," disse ela calmamente. "Há empregados na casa, eu não preciso fazer tudo."
Ela se lembrou de sua vida passada, quando acordava antes do amanhecer todos os dias.
O café de Henrique precisava estar a exatos 85 graus, e o sanduíche tinha que ser tostado até ficar dourado e crocante. As roupas das crianças precisavam ser lavadas à mão, e até as meias tinham que ser passadas.
Mas o que ela recebeu em troca? A ternura de Henrique por Isabela, a proximidade das crianças com a "Tia Bela" e sua morte solitária no dia de seu aniversário de sessenta e dois anos.
"Clarice," a voz dele esfriou. "Se quer chamar atenção, diga logo. Não aja como uma criança de três anos."
Ela curvou levemente os lábios em um sorriso amargo: "Não estou tentando chamar atenção, só quero descansar."
Antes que ela pudesse terminar, a porta foi aberta abruptamente.
Vitor e Alice entraram correndo, com os rostinhos estampados de raiva.
"A mamãe ficou muito preguiçosa!" Alice gritou com uma voz estridente. "Queremos que a Tia Bela venha cuidar da gente!"
Vitor também começou a berrar: "A Tia Bela é muito mais gentil que você, mais trabalhadora e mil vezes melhor!"
O olhar de Henrique permanecia fixo no rosto de Clarice, como se esperasse que ela cedesse e pedisse desculpas.
Mas ela apenas respirou fundo e disse suavemente: "Já que vocês acham que ela é tão boa, tragam-na para cá. Eu não me importo."
O ar na sala pareceu congelar instantaneamente.
O rosto de Henrique escureceu completamente.
"Você tem certeza disso?"
Clarice respirou fundo: "Absoluta."
"Papai, vamos logo!" Alice puxou a manga de Henrique com impaciência. "Quero que a Tia Bela venha agora mesmo!"
"Com a Tia Bela aqui, não precisamos mais de você!" Vitor fez uma careta para Clarice. "Pode ir embora! Saia desta casa!"
Henrique lançou um último olhar para Clarice. Vendo que ela permanecia indiferente, ele se virou e saiu a passos largos com as crianças.
Clarice ficou parada no mesmo lugar, ouvindo o som do motor do carro se distanciando, e fechou os olhos devagar.
Em breve, ela faria exatamente o que eles queriam.
Iria embora deles, e desta casa, para sempre.