Minha amiga de infância, Larissa Rocha, me resgatou do rio e me levou às pressas para receber socorro médico. Pedi especificamente que ela mudasse o trajeto e me levasse a um hospital pequeno, um lugar que Helena Silveira jamais conheceria.
Enquanto observava de longe todos na margem procurando pelo meu "corpo", permaneci em silêncio. Era melhor deixar que Helena perdesse as esperanças de vez e sumisse do meu mundo para sempre.
Bloqueei todos os meios de contato com ela e me mudei para outra cidade. Larissa me conseguiu um emprego em sua empresa, e eu me mantinha ocupado o dia todo, sentindo-me produtivo novamente.
Até que, hoje, alguns colegas de trabalho começaram a discutir algo no celular, surpresos.
"O Gustavo Lemos é médico, mas quem diria que era tão baixo? E eu ainda achava que ele era um profissional de elite!"
"Ele era o amante da chefe, mas a própria mulher o denunciou. Agora ele vai pagar caro."
"Dizem que a mulher está movendo o céu e a terra atrás do marido... uma história dessas dá até alívio, tomara que o marido traído não volte para aquela cilada."
...
Abri o link que compartilharam e vi que Helena havia entregue todas as provas possíveis para denunciar Gustavo. Ela também publicou um texto detalhando a negligência médica dele de três anos atrás.
No final da postagem, havia um pedido de desculpas direcionado a mim:
"Minha falta de profissionalismo causou a morte da minha sogra. Peço perdão sinceramente à falecida e também ao meu marido."
A seção de comentários explodiu instantaneamente:
"Do que adianta pedir perdão agora? A pessoa já morreu, e na época você devia estar bem ocupada na cama do amante!"
"Ainda teve a coragem de inventar que o marido era louco, quanta crueldade!"
"Talvez o marido tenha pulado no rio só para nunca mais ter que olhar na sua cara. Deixe o homem em paz!"
...
A repercussão foi enorme e, naquele mesmo dia, o hospital demitiu Helena. No feed de um amigo em comum, vi fotos dela bebendo sozinha em um bar, em um estado deplorável. No entanto, aquilo já não causava a menor oscilação no meu coração.
Três meses depois, uma visita inesperada apareceu na entrada do meu novo apartamento. Ao ver Helena, meu primeiro instinto foi me afastar imediatamente. Mas ela me seguiu passo a passo, com o rosto iluminado por uma alegria de quem recupera algo perdido.
"Gabriel, eu sabia que você não estava morto, eu sabia..."
"Por que não entrou em contato? Você deve ter visto meu pedido de desculpas na internet, não é? Ainda não me perdoou?"
O tom de voz dela, tão natural e cheio de direitos, quase me fez rir de nervoso. Parecia acreditar que algumas palavras de arrependimento apagariam tudo e voltaríamos a ser como antes.
Eu já havia dado essa chance a ela três anos atrás. Agora, não daria mais.
Dei um sorriso de escárnio:
"Dá para parar de se iludir? Se um pedido de desculpas resolvesse tudo, para que serviria a polícia?"
Dito isso, tirei o acordo de divórcio do bolso e o estendi para ela.
"Sem mais conversa. Assine logo."
Ao ver o documento, Helena franziu o cenho, parecendo não acreditar no que via.
"Divórcio? Você sumiu por três meses por pirraça, tudo bem, mas precisa chegar ao ponto de se divorciar? Eu não acredito nisso."
"Gabriel Duarte, eu não vou aceitar o divórcio. Volte comigo agora e vamos viver nossa vida em paz."
Viver em paz? Para mim, aquilo soava como a mais pura ironia.
Três anos atrás, acreditei que ela tinha cumprido a promessa de colocar Gustavo na cadeia e cortado relações com ele. Jamais imaginei que, durante todo esse tempo, eles estivessem juntos todos os dias, vivendo às mil maravilhas, enquanto eu, o marido, era feito de idiota no escuro.
Eu não queria mais continuar com aquela farsa. Entreguei a caneta a ela com firmeza.
"Assine. Não vamos mais perder o tempo um do outro."