Instantaneamente, senti todo o sangue do meu corpo gelar.
"Espere, eu... estou indo agora."
Mas, assim que dei o primeiro passo, Helena se atravessou no meu caminho.
"Aonde pensa que vai sem pedir desculpas? Você não sai por essa porta antes de dar os cem tapas!"
Eu estava à beira de um colapso, quase sem forças:
"Eu preciso ver minha mãe pela última vez!"
O rosto de Helena não demonstrava um pingo de compaixão; seu olhar era autoritário e inflexível.
"Você não entendeu o que eu disse? Comece logo!"
Ao redor, as pessoas lançavam olhares de desprezo.
"Não acredito que ele seja mesmo um louco, usando a própria mãe como desculpa para fugir da responsabilidade!"
"Pessoal, cerquem a porta, não deixem ele sair!"
Esmurrei a porta desesperadamente, deixando dez marcas de sangue com as unhas na madeira. O tempo passava segundo a segundo, e eu sentia como se um pedaço do meu coração estivesse sendo arrancado.
Por fim, eu cedi.
Levantei a mão e comecei a golpear meu próprio rosto, um golpe após o outro. Bati até ficar desfigurado, com o rosto inchado e ensanguentado.
"...noventa e oito, noventa e nove."
Ao chegar no centésimo, lágrimas involuntárias se misturaram ao sangue que escorria. A expressão de Helena tornou-se complexa, mas ela ainda não estava satisfeita.
"Ainda falta o pedido de desculpas."
Cerrei os dentes e, diante de um Gustavo visivelmente vitorioso, bati a cabeça no chão com força, até a carne se abrir em sangue.
"Sinto... muito!"
O tom de Helena finalmente mudou um pouco.
"Tudo bem, amanhã estarei lá pontualmente para operar sua mãe."
Eu ia abrir a boca para explicar, quando meu celular recebeu uma notificação: era o atestado de óbito.
"Sr. Duarte, meus sentimentos."
Naquele momento, meu coração morreu definitivamente. Caí desolado no chão, sem ouvir mais nenhum dos insultos ao meu redor.
Helena instintivamente fez menção de me acudir, mas a voz de Gustavo a deteve.
"Ainda temos uma cirurgia hoje à tarde, venha me ajudar com os preparativos!"
A mulher não me dirigiu nem mais um olhar; segurou o braço dele e virou as costas. Enquanto eu tentava me levantar para cuidar do funeral da minha mãe, alguém agarrou meu tornozelo com força.
"Acha que acabou com um simples 'sinto muito'? Nem pensar!"
"O Dr. Gustavo é bom demais, mas hoje nós vamos dar uma lição nesse doente mental por ele!"
Dito isso, um chute súbito atingiu meu abdômen. Cuspi uma golfada de sangue.
"Por favor, parem..." implorei fracamente.
Mas a resposta veio com chutes ainda mais violentos e xingamentos cruéis. Fui jogado para fora do hospital como se fosse lixo, vendo, pela última vez, o vulto de Helena se afastando apressada.
"De agora em diante, nunca mais nos veremos."
Arrastando meu corpo mutilado, disquei um número que sabia de cor e me atirei da ponte em frente ao hospital. As águas do rio me cobriram por completo.
No limite da consciência, pareceu-me ouvir gritos apavorados vindos da margem:
"Dra. Helena, olhe! O homem que acabou de pular no rio parece o seu marido!"