Cheguei em casa e, para minha surpresa, Helena entrou logo em seguida. Ela se aproximou de uma forma que não costumava fazer, exalando um perfume que me era completamente estranho.
"Faz quase um mês que não ficamos juntos. Você não queria tanto isso?"
Eu não podia acreditar. Depois de eu ter flagrado uma verdade tão sórdida, ela tentava me calar com aquela encenação superficial.
"Não me toque!" afastei-me com força. "Eu acabei de ver o Gustavo. Você não tem nada a me dizer?"
Antigamente, se eu ficasse bravo, ela tentaria me acalmar na mesma hora. Agora, seu rosto estampava apenas impaciência.
"O que passou, passou. O Gustavo tem um futuro brilhante pela frente, não dificulte as coisas para ele".
Olhei para ela sem acreditar, demorando a reencontrar minha própria voz.
"E a minha mãe? Não importa que ela vá passar o resto da vida presa a uma cama?"
Ela suspirou, pressionando as têmporas com cansaço:
"Não se esqueça de que sou a única capaz de realizar as cirurgias de reabilitação mensal da sua mãe".
Eu não conseguia crer no que ouvia; a ameaça em sua voz era nítida. Quando minha mãe esteve em estado crítico, passei três dias e três noites na porta do centro cirúrgico. Naquela época, Helena negligenciou a própria saúde para operá-la e ainda encontrava tempo para fazer sopa e me dar na boca:
"Sua mãe não gostaria de te ver sofrendo assim. Deixe tudo comigo".
Eu cheguei a vê-la como minha salvação, a pessoa mais confiável do mundo.
Helena ia continuar falando, mas o toque estridente do celular a interrompeu. Ela atendeu no mesmo segundo. Ao responder Gustavo, sua voz assumiu uma doçura e uma leveza que eu desconhecia. Antes de sair, ela hesitou por um momento : "Não vá ao hospital causar problemas para ele".
Cerrei os punhos involuntariamente. Helena nem esperou minha resposta; saiu apressada, batendo a porta atrás de si. Pouco depois, meu celular começou a apitar sem parar com notificações.
Eram fotos, uma após a outra. Fotos íntimas na cama, cada uma marcada com o nome de um hotel em um país diferente. Todos os presentes que Helena me trazia de suas viagens de negócios, que eu guardava com tanto zelo em uma vitrine de vidro, agora faziam sentido. Eram a prova de sua traição e, ao mesmo tempo, o preço da compensação que ela achava que eu merecia.
Lutei contra a náusea que subia pelo meu estômago e comecei a arrumar minhas malas para ir embora. Assim que minha mãe terminasse a última sessão de reabilitação, eu a levaria comigo e partiríamos.
No dia seguinte, fui acordado por uma ligação urgente do hospital.
"Sr. Duarte, o quadro da sua mãe se agravou repentinamente. Apenas a Dra. Helena pode fazer essa cirurgia, mas não conseguimos contato com ela".
Ao chegar às pressas no hospital, ouvi a voz fraca da minha mãe através da máscara de oxigênio:
"Gabriel, não peça nada a ela por minha causa".
Balancei a cabeça em desespero. O médico ao lado insistia : "Você é o marido dela. Se você ligar, talvez ela atenda".
Com as mãos trêmulas, disquei o número repetidas vezes, sentindo meu coração apertar. Mas a voz mecânica e fria da operadora era a única resposta, como um balde de água gelada sobre minha cabeça. Não desisti, liguei até a bateria do celular estar prestes a acabar.
Dentro do centro cirúrgico, o médico substituto, suando frio, saiu várias vezes para me alertar:
"Tenho apenas dez por cento de chance de sucesso. É melhor encontrar sua esposa o quanto antes".
Eu desabei no chão, em colapso. Vinte minutos depois, Helena finalmente retornou a ligação.
Minha pergunta saiu num grito desesperado : "Helena, por que você não veio fazer a cirurgia da minha mãe?!"
No entanto, quem respondeu foi a voz vitoriosa de Gustavo:
"Sinto muito, Gabriel. Eu torci o pé agora pouco e a Helena está fazendo uma massagem em mim".
Em seguida, ouvi sua respiração pesada:
"Mais devagar, dói!"
Se eu não tivesse visto aquelas fotos explícitas antes, talvez ainda fosse tolo o suficiente para acreditar que era apenas uma "massagem". No segundo seguinte, Helena tomou o celular e rosnou, impaciente:
"A cirurgia da sua mãe é só amanhã. Pare de usar esses truques baixos por ciúme e não ligue mais!"