"Eu passei esses três meses muito mal e refleti sobre muita coisa. Percebi que ignorei seus sentimentos todos esses anos e que te decepcionei, só porque achava que você nunca me deixaria. Me perdoe... não deveríamos estar assim...".
As lágrimas escorriam pelo rosto dela, que estava muito mais magro e exibia um cansaço impossível de esconder. Eu permaneci em silêncio, e ela, desesperada, tentou me segurar, visivelmente tensa. Recuei três passos imediatamente, assustado com sua reação, como se ela fosse algo contagioso.
De repente, o celular dela começou a tocar. Sem precisar olhar, eu sabia que era o Julian; aquele era o toque personalizado dele. Ela hesitou por dois segundos e rejeitou a chamada na minha frente. Beatriz me olhou com uma ponta de esperança, mas eu apenas perguntei: "Era o Julian, não era?".
"Sim... mas eu...".
"Então por que não atende para saber o que aconteceu? Vai que a avó dele teve outra emergência médica que, no hospital, acaba sendo só um arranhão que já está até cicatrizando!".
"Thiago, você ainda está com ciúmes, não está?".
Eu não conseguia acreditar no que ouvia. Fiz uma careta de total incredulidade e balancei as mãos negativamente: "Eu não estou com ciúmes, não invente coisas para sujar minha imagem!".
Recuei mais dois passos e saí correndo. Foi assustador; eu nunca tinha visto a Beatriz agindo daquela forma e cheguei a pensar que estava em um pesadelo. Ao chegar em casa, a sensação de estranheza só aumentou, e acabei enviando meu pedido de demissão por e-mail para o Sr. Ferreira naquela mesma noite.
Mudei de cidade novamente. Finalmente, vivi um tempo sem ouvir ou ver qualquer notícia sobre ela, até agora. O som do copo sendo colocado na mesa pelo meu chefe me trouxe de volta à realidade: "A redistribuição de tarefas fica assim, pessoal. Estão dispensados".
Nosso projeto com o Grupo Ferreira correu muito bem. No jantar de celebração, três meses depois, Beatriz — que já havia tido o bebê — alugou um hotel com águas termais para toda a equipe comemorar.
À noite, ela bateu à porta do meu quarto. Estava vestida apenas com um roupão e disse suavemente: "O quê? Não vai me deixar entrar? Se alguém nos vir aqui fora, imagine o que vão falar...".
Eu não dei passagem. Fiquei parado no batente, achando graça da situação: "Dra. Beatriz, vir bater à minha porta vestida assim já é motivo para fofoca, entrando ou não. Melhor a senhora não entrar".
No segundo seguinte, ela se esquivou por baixo do meu braço e invadiu o quarto, pegando-me de surpresa. Ela se sentou folgadamente, cruzou as pernas e sorriu como se tivesse vencido uma batalha: "Melhor fechar a porta agora, ou você prefere que os outros vejam?".
Fechei a porta e me sentei na poltrona perto da janela, de braços cruzados, encarando-a como se estivesse diante de um inimigo. Beatriz não pareceu gostar da minha distância. Tirei um cigarro e o acendi.
"Você voltou a fumar?!".
Sim, ela detestava o cheiro de cigarro e, na memória dela, eu havia parado. Durante o projeto, eu não seria bobo de fumar na frente da cliente, mas agora era diferente.