Antes de me envolver com ela, eu certamente não era assim. O amor deveria ser algo que embeleza a vida, não algo que te arrasta para um abismo de sofrimento. Se não é algo bom, então o melhor é descartar. O que na vida é insubstituível, além da própria existência?. Perder um grande amor não é o fim do mundo; a vida continua.
Olhando para o saldo de trinta milhões de reais na minha conta, o sorriso veio fácil. Para uma herdeira como a Beatriz, esse valor era irrisório, mas para mim, representava o ápice de tudo o que eu poderia reivindicar legalmente. Eu estava mais do que satisfeito.
Passei os três meses seguintes vivendo de forma plena, sem qualquer sombra de Beatriz no meu dia a dia. Trabalhava no horário comercial, sem horas extras. Nos dias de folga, pescava com amigos, jogava sinuca ou ia à academia. Sem exagero, não eram apenas meus amigos que notavam; eu mesmo sentia que estava radiante. Aos quase trinta anos, se eu não sorrisse demais para não marcar as linhas de expressão, passaria facilmente por um universitário cheio de energia.
Certa noite, enquanto eu caminhava pelo parque após um amigo precisar cancelar nossos planos de última hora para viajar a trabalho, uma voz feminina me parou.
"Thiago!".
Virei-me e dei de cara com Beatriz. Ela exibia um barrigão de grávida e um semblante exausto, com olhos que transbordavam mágoa.
"Por que você não me deu notícias? Nem uma ligação, nem uma mensagem sequer?!".
Diferente de seus habituais tons de cobrança, desta vez havia um nó na garganta e uma vulnerabilidade real em sua voz. Fiquei um pouco confuso. Recordando os fatos, após a separação, o Sr. Ferreira sentiu-se culpado e me convidou para voltar ao Grupo Ferreira com uma promoção e aumento salarial. Eu aceitei o benefício, claro, e voltei a trabalhar lá normalmente. Beatriz, pelo que soube por colegas, havia ficado uma semana sem aparecer e depois tirou licença para aguardar o parto.
Eu não acompanhava a vida dela desde o término; tudo o que sabia era por fofocas de escritório. Mas, sendo ela a dona da empresa, as notícias sobre sua gravidez circulavam livremente.
Ao perceber meu silêncio, Beatriz tentou segurar minha mão, mas eu me esquivei rapidamente. Sua mão ficou suspensa no ar enquanto ela me olhava com incredulidade. Sob a luz dos postes do parque, o contraste entre nós era evidente: eu parecia muito melhor e mais saudável do que ela. Para quem olhasse de fora, ela parecia uma mulher amargurada e eu, o vilão da história.
Mantive um tom frio e profissional: "Dra. Beatriz, nós terminamos há muito tempo".
"E daí?" ela rebateu.
Minha única reação foi o silêncio diante de tamanha audácia. Beatriz conseguia travar meu raciocínio com sua lógica distorcida. Já que havíamos terminado, não havia qualquer relação entre nós fora do ambiente de trabalho, especialmente porque o filho que ela esperava não era meu.
"Por que eu ligaria para a senhora? Estritamente falando, a senhora nem é minha superior direta", respondi.
Ao ouvir isso, os olhos de Beatriz se encheram de lágrimas. "Eu fiquei todo esse tempo esperando você me procurar! Mesmo em casa, eu esperava por um sinal seu!".