Foram inúmeras as vezes em que consolei o cansaço dela e sequei suas lágrimas com beijos.
Sete anos depois, finalmente entendi que o amor não é como uma prova acadêmica: quanto mais você se esforça, mais parece que o resultado é em vão.
Peguei tudo o que me pertencia e abandonei aquele lugar que um dia chamei de lar.
Voltei para o meu pequeno apartamento; não era tão luxuoso quanto a mansão dela, mas me trazia uma paz imensa.
Dormi profundamente até a manhã seguinte, quando o toque do celular com o nome de Beatriz me despertou.
"Thiago, você resolveu brincar de sumir? Acha que isso tem graça?"
"Volte logo para casa. Já comprei até um presente para me desculpar".
Raiva e cobranças, exatamente como sempre. Ela nunca se colocava no meu lugar ou tentava entender minhas emoções.
Lembrei-me de quando tive uma concussão cerebral e precisei ser internado.
Naquela mesma época, o cachorrinho do Julian ficou doente e ela, com medo de que ele ficasse triste, dirigiu centenas de quilômetros para ampará-lo, deixando-me sozinho no hospital.
Quando questionei se ela realmente se importava comigo, ela reagiu com a mesma fúria de agora:
"Você já não está no hospital sendo cuidado? O Julian não tem ninguém por ele! Será que você não pode ser um pouco mais compreensivo com a nossa situação?"
Naquela época, eu evitava brigar e enganava a mim mesmo, acreditando que a relação dela com Julian era pura e que ela me amava.
Mesmo que ela me tratasse com arrogância e autoridade, eu aceitava tudo com prazer, como se fosse seu servo mais fiel. Mas agora, eu não era mais aquele homem.
Desde o dia em que ela fugiu do altar, entramos em uma guerra fria. Beatriz passou a me tratar com total indiferença.
Além de não perguntar por que mudei meus pertences, ela agia na empresa como se eu fosse um completo estranho. Foi então que percebi: nosso amor já tinha apodrecido há muito tempo.
A fuga dela com Julian foi apenas o peso final que destruiu o equilíbrio da balança.
Talvez nossa história tenha terminado em cada uma das vezes que ela me trocou por ele no passado.
Eu não podia mais aceitar uma mulher assim. Sete anos de relacionamento chegariam ao fim agora.
Organizei tudo, restando apenas passar no RH para oficializar meu desligamento.
O que eu não esperava era cruzar com Beatriz e Julian nos corredores da empresa. Perto da escada, Julian segurava a mão dela e dizia com doçura:
"Me desculpa, Bia. A culpa é minha. Ontem você dormiu lá em casa e eu fiquei tão empolgado que perdi o sono, acabamos nos atrasando para a reunião de hoje".
Beatriz não pareceu se importar nem um pouco com o toque dele:
"Não tem problema, era apenas uma reunião matinal".
Abaixei o olhar, pronto para dar meia-volta e sair dali, mas o movimento chamou a atenção deles.
"Quem está aí?!"
Ao me ver surgir na curva do corredor, a expressão de Beatriz congelou. Ela franziu o cenho com desprezo e começou a me recriminar:
"Thiago, estamos em horário de expediente. O que você está fazendo parado na escada?"
"Você sabe muito bem que detesto falta de profissionalismo. Está tentando me irritar de propósito?"
Senti como se tivessem jogado gelo em meu peito, o sangue gelado correndo pelas veias.
Quer dizer que, para Julian, não havia problema em perder uma reunião, mas eu, que estava apenas usando as escadas porque o elevador quebrou, era o grande culpado?
Respirei fundo e estendi minha carta de demissão, falando com frieza:
"Dra. Beatriz, estou aqui para me desligar da empresa".
Ela ficou atônita por um segundo. Julian, fingindo preocupação, interveio:
"Bia, será que o Thiago está bravo por causa do que aconteceu no casamento?"