Após ter o ferimento na testa enfaixado, o coração de Ricardo ainda batia de forma descompassada.
Ao pensar naquela criança que nunca nasceria, seus olhos arderam com lágrimas que ele não conseguiu conter.
Ele se levantou, decidido a voltar e exigir uma explicação honesta, mas sentiu um par de braços envolver sua cintura por trás.
Vivi disse com uma voz infantil e manhosa:
"Kadu, você ainda vai atrás daquela louca? Ela quase me matou e ainda te agrediu. Esquece ela de uma vez. O bebê já foi tirado, ela não tem mais como se prender a você".
"Ela nunca se prendeu a mim".
A voz de Ricardo saiu sussurrada, mas a força com que ele removeu as mãos de Vivi foi firme e definitiva. Diante do olhar chocado dela, ele continuou com uma frieza atípica:
"Casar sempre foi uma exigência minha, não dela. Já te dei o suficiente, Vivi. Não tente dar um passo maior que a perna".
Ricardo deu o assunto por encerrado. Sem querer prolongar o contato, ele se virou para sair, mas Vivi, inconformada, correu e o abraçou novamente.
"Eu não estou tentando nada! Só estou indignada por você. Ela deveria ter te consultado antes de interromper a gravidez. Ela simplesmente tomou a decisão sozinha e ainda teve a audácia de te bater. Eu só sinto a sua dor, Kadu".
Sentindo o peito ser molhado pelas lágrimas dela, o corpo de Ricardo ficou rígido e ele soltou um suspiro pesado. Mas, no instante em que ia confortá-la, uma dúvida o atingiu.
"O que você foi fazer com a Dona Glória? Eu não te dei o dinheiro do colar e pedi para que não procurasse mais a Estela?"
Vivi estacou, as mãos mexendo nervosamente na barra da blusa.
"Eu fui pedir desculpas... O que eu fiz no trabalho dela foi errado... Mas eu não esperava que ela fosse partir para cima de mim..."
Enquanto ela chorava, a irritação de Ricardo apenas crescia. Ele insistiu: "E por que a Dona Glória desmaiou? O que você disse para ela?"
Vivi o encarou com uma expressão de total confusão e voz trêmula:
"Eu não sei! Talvez ela tenha se assustado ao ver a briga entre eu e a Estela. A culpa é minha, eu não deveria ter ido lá..."
Ela voltou a soluçar alto, mas Ricardo já não tinha mais paciência. Sem dizer mais nada, ele a deixou para trás e caminhou em direção à sala de cirurgia. No entanto, o corredor estava deserto. Sentindo um aperto no peito, ele parou um funcionário do hospital para perguntar.
A enfermeira hesitou por alguns segundos, com um olhar de pesar: "A senhora Glória não resistiu à cirurgia. Meus pêsames".
Um zumbido agudo tomou conta da mente de Ricardo. Com as pernas pesadas como chumbo, ele caminhou mecanicamente em direção ao necrotério. Vivi apareceu novamente, tentando impedi-lo com seus dramas habituais.
"Kadu, para de se humilhar por quem não te quer! A Estela nunca prestou, vamos para casa. Eu estou com frio, esqueci meu casaco, ah—"
Ricardo a empurrou com tanta força que o corpo de Vivi colidiu violentamente contra a parede. Sem entender o que estava acontecendo, ela começou a chorar de medo: "Kadu, por que você está sendo tão bruto comigo?"
"A Dona Glória morreu".
O rosto de Vivi ficou pálido instantaneamente, mas ela logo começou a berrar em negação:
"O que eu tenho a ver com isso? Ela desmaiou sozinha, eu não encostei nela! A Estela vai querer me culpar por isso agora?" "Isso é uma injustiça tremenda comigo!"
Ela começou a espernear e chorar como uma criança mimada. Foi então que alguns guardas do exército se aproximaram com expressões severas:
"Você é Vivi? Recebemos uma denúncia de lesão corporal seguida de morte. Você precisa nos acompanhar até a corregedoria militar".
Vivi paralisou de pavor e buscou o olhar de Ricardo desesperadamente.
"Kadu, me salva! É tudo mentira, você sabe!"
Mas, independentemente de seus gritos, o olhar de Ricardo permaneceu vazio e indiferente.