Ricardo me transferiu cem mil reais. Essa era a sua forma habitual de pedir desculpas.
Foi exatamente assim no passado, quando ele usou o pretexto de ter sido drogado com um afrodisíaco para se aproveitar de mim, que ainda estava no ensino médio. Depois, ele passou a financiar meus estudos na academia militar como se fosse um favor.
Naquela época, eu chorei até soluçar, gritando que não estava à venda. Ele me envolveu em seus braços e repetiu promessas vazias, uma após a outra. "Minha doce Estela, é claro que não é isso. Eu te amo há muito tempo. Assim que você se formar, eu te levo para o altar."
Mais tarde, ele até cumpriu a promessa de me manter por perto. Mas isso não o impediu de manter uma "oficial" em casa enquanto as amantes se multiplicavam lá fora.
Esperei alguns minutos e, vendo que eu não tinha a intenção de responder, Ricardo enviou outra mensagem: "Por que você não está em casa? Onde você se meteu?"
Eu sentia uma tontura persistente e não me dei ao trabalho de responder. Algum tempo depois, recebi alta e peguei um táxi para casa. No entanto, quando a porta se abriu, não foi Ricardo quem me recebeu.
Vivi estava usando a minha toalha de banho, com um olhar carregado de hostilidade. Mas, assim que ouviu passos se aproximando atrás dela, transformou-se instantaneamente naquela figura frágil e digna de pena.
"Irmã Estela, não foi minha intenção vir à sua casa. Eu tomei chuva e o Kadu apenas deixou que eu tomasse um banho aqui."
Um banho que deixava o corpo coberto de marcas de mordidas e chupões? Ao notar o meu olhar, Vivi fez questão de se mover para exibir ainda mais as evidências.
Antes que eu pudesse abrir a boca, Ricardo se colocou à frente dela, assumindo a postura de um protetor fervoroso. Ele tinha uma expressão severa. "Fui eu quem a trouxe para cá. Se quer culpar alguém, culpe a mim..."
"Com licença. Só vim buscar as minhas coisas."
Sem esperar que ele terminasse, passei pelos dois e entrei, sem lhe dedicar um único olhar. Ricardo estacou, surpreso, e seu rosto escureceu. Ele soltou Vivi e me seguiu apressado.
Observando meu vulto enquanto eu guardava roupas na mala, sua voz soou ríspida. "Você chega e já começa com esses ataques de pelanca? Não pode me dar um segundo de paz?"
Ele pegou um cigarro, acendeu e tragou profundamente. Ao levantar o olhar, viu que eu não tinha parado o que estava fazendo. Ele cerrou os dentes e praguejou baixinho.
"Eu mando a Vivi embora agora mesmo, está bem! Você está grávida, para que todo esse drama!"
Minhas mãos pararam por um segundo e, de repente, soltei uma risada. Ele não fazia a menor ideia do tamanho da minha barriga ou de como o bebê estava se desenvolvendo, mas adorava fingir que era um pai dedicado.
Ao ver aquele sorriso enigmático e sombrio no meu rosto, ele sentiu que algo estava errado. Antes que pudesse processar o que era, Vivi correu e se ajoelhou diante de mim.
"Irmã Estela, por favor, não brigue com o Kadu por minha causa. A culpa é toda minha. Se quiser descontar sua raiva, pode me bater!"
Dizendo isso, ela agarrou a minha mão, tentando forçá-la contra o próprio rosto. Ricardo interveio com voz grossa, puxando Vivi para cima.
"Chega! Se ela quer ir embora, que vá! Vamos ver quem vai se arrepender depois!"
Dito isso, ele olhou com compaixão para as pernas de Vivi. "Você ralou o joelho? Deixa eu passar um remédio."
Vivi balançou a cabeça, corando, e disse com uma doçura venenosa: "Não foi agora que ralou... foi naquela hora, na cama..."
Um lampejo de pânico cruzou os olhos de Ricardo, que olhou para mim instintivamente. Mas eu permaneci como um lago de águas paradas, sem um único reflexo de dor.
Vivi soltou um ganido e puxou o braço com força: "Kadu, você está me machucando!"
Mas ele nem a ouviu. Ele me viu saindo pela porta e correu atrás de mim.