Fui direto pro sofá do canto, que eu conhecia de cor. Algumas amigas estavam lá, já no clima.
Quando me viram, acenaram animadas:
"Oi, oi, a Larinha apareceu. A gente já tava achando que você não vinha hoje não."
"E esse aí, que gato." Outra amiga foi logo analisando o Rafael.
Depois bateu a mão como se tivesse lembrado de alguma coisa:
"Você não é aquele... tá ficando com a nossa Larinha agora?"
"Bom gosto, hein." A amiga ainda tentou cutucar levemente o queixo do Rafael.
Desviei a mão dela de uma vez. Olhei pro rosto fechado do Rafael e falei um pouco irritada:
"Para com isso. Não fica tocando nas pessoas."
"Vou ficar com raiva."
A amiga percebeu que tinha exagerado e foi logo me acariciando a cabeça pra amansar:
"Tá bom, tá bom, não fica brava. Pensei que você tinha crescido e arranjado um namoradinho."
Vi que elas tinham entendido errado e agarrei o braço do Rafael logo:
"Meu namorado. De verdade."
A amiga olhou pro Rafael e sorriu sem dizer nada.
Puxei o Rafael pra sentar.
No sofá tinha mais alguns rapazes, todos arrumados e produzidos. Assim que as amigas chegaram perto, eles foram logo se chegando.
"Moça, quer uma uva?"
"Deixa eu te servir uma bebida."
Não esperava mesmo que as amigas tivessem chamado companhia pra noite. Expliquei pro Rafael meio sem graça:
"Eu não sou assim normalmente. Venho só pra ver o movimento, fico entediada em casa sozinha."
"Juro."
Desde que entrou, o Rafael estava com aquela frieza espalhada pelo corpo todo. Olhos baixos, falou com calma:
"Vamos embora. Não quero ficar aqui."
Fiquei parada.
Uma amiga piscou o olho, se levantou e me puxou:
"Larinha, vem, a gente vai no banheiro."
Não ia de jeito nenhum, o Rafael estava ali. Balancei a cabeça que não.
A amiga abaixou a voz:
"Tenho uma fofoca do seu namorado. Quer ouvir?"
Quero. Aquilo eu ia ouvir com certeza.
"Rafael, me espera aqui, tá?"
Saí com a amiga pro corredor.
Assim que chegamos lá fora, ela disse:
"Larinha, se você tiver falando sério, já te aviso logo. Seu namorado eu já vi antes. Foi aqui no bar mesmo."
Minha expressão mudou na hora.
"Tua situação dele era pesada. Naquela época ele devia nem ter terminado o ensino médio ainda, e a mãe dele trouxe ele aqui pro bar. Disse que tinha dívida que não conseguia pagar e queria usar ele como garantia, ia tirar ele da escola."
"Ele não chorou. Só pegou uma garrafa e destruiu o bar, até que ninguém teve coragem de chegar perto."
"No fim a gente que tava assistindo ficou com dó, juntou o dinheiro e pagou a dívida. Só depois a mãe dele parou."
"Com sua posição e a posição dele, você tem certeza que seu pai não vai aparecer com dois milhões pra acabar com a história de vocês?"
A amiga era claramente viciada em novela. Ficou imaginando o enredo por um momento e fez aquela cara sofrida de protagonista masculino.
Eu a empurrei de lado.
Que morar comigo, que virar o jogo.
Nada disso importava mais.
Mesmo que o Rafael fosse difícil e temperamental do jeito que ele era, eu aguentava.
O que eu queria agora era ver o Rafael assumir o lugar que era dele de direito e chutar aquela mãe adotiva maldita pra fora da vida dele.
Rafael.
O Rafael que nem eu, herdeira do homem mais rico do país, tinha coragem de enfrentar de frente. Como ela se atrevia a fazer aquilo com ele.
Como ela se atrevia.
Corri de volta pra dentro.
Ainda não tinha chegado no sofá quando ouvi os rapazes rindo e falando pro Rafael.
"Faz quanto tempo que você trabalha nisso? Você não sorri nunca."
"Quanto sua patrocinadora te paga por mês? Se um dia ela cansar de você, me apresenta, tá?"
"Sua patrocinadora é difícil de chegar perto não. As amigas protegem ela que nem tesouro."
Minha cabeça começou a zumbir.
Mas antes mesmo de eu reagir, uma série de gritos explodiu ao redor.
O Rafael estava socando.
Cada golpe com tudo que tinha.
Os rapazes gritavam de dor.