Personagens neste capítulo:
Valentina Ramos (秦棠)
Marcelo Vieira (謝牧澤)
Sérgio Cavalcante (周序)
Roberto Fonseca (姜成)
Irmã de Valentina — mencionada (秦棠妹妹, chamada 清清 no cap. 20)
Capítulo 19
Marcelo chamou Valentina para fora do quarto.
O rosto de Valentina havia relaxado um pouco:
"O que aconteceu hoje... obrigada."
"Você me agradece por causa do Sérgio?" Marcelo deu um riso amargo. "Você gosta mesmo tanto assim dele?"
Na verdade, não era bem isso.
O olhar de Valentina escorregou para o lado. A voz saiu seca:
"Não tem nada a ver com você."
"Na verdade... se você realmente gosta dele, eu posso aceitar."
"Basta você topar voltar comigo..."
Os olhos de Marcelo carregavam uma contenção dolorosa. O canto estava levemente vermelho.
Valentina o encarou:
"Marcelo, você não acha que está sendo muito generoso? Muito magnânimo?"
"Antes eu gostava de você, e você me machucava, protegia a Júlia."
"Agora que não gosto mais, você vem correndo me pedir de volta."
"Marcelo, você tem noção de como isso soa?"
Marcelo disse com amargura:
"Tenho. Soa mal mesmo."
"Se soar mal é o que faz você voltar, aceito."
Valentina ergueu a própria mão:
"Essa mão era precisa. Agora, depois de segurar um lápis por pouco tempo, a dor já toma conta."
"Você sabia que tenho depressão. Sabia que tenho trauma de água. E mesmo assim me trancou num porão e me afogou repetidas vezes."
"Depois de tudo isso, como você acha que eu poderia te perdoar?"
"A Júlia tem culpa sim. Mas sem a sua conivência, você acha que ela teria chegado a esse ponto?"
A cada palavra, o rosto de Marcelo ficava mais branco.
"Me desculpa, Val..."
"O que precisa acontecer para você me perdoar?"
"Não vai acontecer, Marcelo."
A voz de Valentina era de uma frieza total:
"O que você me fez, posso até suportar. Mas minha irmã?"
Marcelo ficou sem resposta.
A relação dele com a irmã de Valentina havia sido boa de verdade.
A menina tinha um trauma psicológico profundo. Ficava encolhida no canto do quarto, sempre assustada.
Marcelo havia tido paciência para conversar com ela, sentar ao lado dela, ajudá-la a se aceitar aos poucos.
Com o tempo, aquela menina destruída por dentro também havia começado a sorrir para ele. E um dia, com os olhos límpidos fixos nele, havia dito:
"Cunhado, você tem que tratar minha irmã muito bem."
"Ela sofreu muito. Você precisa deixá-la feliz."
Marcelo havia sentido o coração amolecer por inteiro. Olhou direto para aqueles olhos claros e fez a promessa, palavra por palavra:
"Pode ficar tranquila. Vou fazer da Valentina a pessoa mais feliz do mundo."
Depois disso, a condição da menina havia ido melhorando.
Ela voltou a rir. Começou a conversar com pessoas. Marcelo contratou professores particulares para ela. Ela prestou o vestibular e tirou notas muito boas.
Os médicos avaliaram que naquele inverno ela já poderia tentar entrar numa escola e conviver com outras pessoas.
Tudo estava melhorando.
Mas ela havia morrido.
Com cortes no pulso, deixando o sangue ir até o fim.
Uma morte tão resoluta. Tão cheia de dor.
Ele havia causado aquilo.
Marcelo não conseguia encarar os olhos de Valentina. Recuou dois passos, tropeçando.
"Eu..."
"Chega. Da próxima vez que nos vermos, vai ser no tribunal."
Valentina não queria mais palavras. Quando virou para ir embora, ele a segurou.
"Val, o caso do Roberto Fonseca é perigoso. A organização por trás dele é enorme."
"Já chegou longe o suficiente. Se continuar investigando, vai se machucar."
Valentina soltou a mão dele:
"Não é problema seu."
De volta ao quarto, ela sentou na beirada da cama.
"O que foi? Quem deixou minha senhorita Ramos assim?"
Valentina perguntou a Sérgio com uma voz carregada:
"Você acha que eu estou sendo imprudente em continuar investigando?"
Sérgio semicerrou os olhos.
"Com certeza."
Valentina baixou a cabeça, desanimada:
"Então até você acha que..."
"Mas você está fazendo algo muito certo e muito importante."
Sérgio a interrompeu:
"Gentil, firme, em busca de justiça. Essa é a Valentina que eu conheço."