Rafael me viu assim e um brilho de diversão passou fundo nos olhos dele. Então bateu levemente no meu nariz com a tampinha da caneta.
"Faz a prova."
Olhei pra prova, olhei pra ele, e decidi tentar uma última negociação.
"Rafael, pensa bem. Ser meu namorado rende muito mais do que ser meu professor. Casa, carro, dinheiro, você tem tudo. Quando você se formar, vem morar com a gente e vira genro da família Sena. É só ser boazinho e deixar as coisas rolarem no meu ritmo, e você já pula umas oito gerações de esforço de uma vez."
"Me fala um número. Quanto você quer. Eu pago."
"Olha pra mim, sou bonita, tenho um corpo incrível, e ainda posso te sustentar..."
Rafael soltou uma série de tosses fortes e repentinas.
Demorou um tempo pra se recuperar. Pegou a prova, recompôs a expressão e mudou de assunto com naturalidade:
"Rápido. Resolve as questões."
Eu ainda não tinha desistido, preparei pra insistir mais um pouco, mas Rafael me lançou um olhar demorado e disse com peso:
"Eu disse. Resolve. As questões."
"Se não quer que eu peça demissão, fica quietinha."
"Não tenho o menor interesse em arrumar herdeira."
Desanimei e abaixei a cabeça pra fazer a prova.
Que problema tem ser herdeira. Herdeira não merece amor de verdade? Ainda mais uma herdeira de dezoito anos na flor da idade.
Fiz as questões por um tempo, até o grupo das meninas começar a me chamar sem parar.
Bia: Larinha, vem sair com a gente. Fê: Abriu um bar novo, veio um cantor. O cara é um espetáculo, gente. Ju: Quem não aparecer hoje paga a próxima rodada.
Li as mensagens e fiquei na dúvida.
Por causa da missão de conquistar o Rafael, fazia um tempão que eu não ia a lugar nenhum. Estava com saudade.
Rafael deu uma olhada pra cá e puxou meu celular de vez.
Com um baque seco, o celular foi parar na lixeira sem cerimônia nenhuma.
Na mesma hora fui ficando com raiva, prestes a explodir, mas Rafael me lançou um olhar frio e disse com voz pesada:
"Lara Sena. Faz a prova. Você não vai a lugar nenhum."
Bati a mão na mesa de raiva. Fazer eu faço, mas porque eu quero.
Não é porque meu marido é controlador coisa nenhuma.
O Rafael dos dezoito anos era difícil demais de conquistar. Que irritante.
Mas eu ainda tinha confiança. Afinal, o Rafael dos vinte e cinco foi conquistado por mim no final das contas.
Como foi que eu consegui o Rafael dos vinte e cinco?
Lembro bem. Primeiro o choro. Depois a bagunça. Depois o escândalo.
Fui atrás de todas as formas possíveis.
Aparecia na empresa dele todo dia, mandava flores, chocolate e carta de amor na frente do escritório inteiro.
Onde quer que ele fosse jantar, eu fechava o restaurante e forçava ele a me notar.
Uma vez o Rafael perdeu a paciência e disse:
"Srta. Sena, a senhora não acha que forçar a barra não funciona?"
Virei a cabeça de lado. Não sei de onde vinha aquela coragem na época. Talvez fosse porque o Rafael nunca tinha me recusado de verdade, com seriedade.
Naquele dia eu o empurrei contra a parede e fiquei na ponta dos pés pra morder a orelha dele.
E ainda dei uma lambida.
"Então me diz, Sr. Vian. Consigo forçar a barra ou não?"
Rafael não respondeu. Aquela frieza de sempre se desfez de repente, e ele me empurrou com pressa, visivelmente sem saber o que fazer.
A orelha inteira tingida de vermelho.
"Se... Srta. Sena, por favor, se comporte."
Era o que ele dizia. Mas depois disso o Rafael foi ficando cada vez mais acessível.
Eu sabia. O Rafael era daqueles que guarda tudo por dentro.
No fundo, já estava esperando eu aparecer todo dia fazia tempo.
...
A história de que o Rafael virou meu professor particular não chegou a dois meses pra se espalhar pela faculdade inteira.
Inúmeras veteranas sentiram o coração partir.
E tudo isso foi obra minha.
Eu queria que todo mundo soubesse que o Rafael não tinha absolutamente nada a ver com aquela tal Muriel.
Ele era o marido que eu tinha escolhido.
Quando o Rafael ficou sabendo que eu estava espalhando isso, simplesmente ergueu os olhos por um segundo e voltou a ler o livro sem nenhuma reação.
Com um cuidado todo especial, eu disse:
"Fui eu que espalhei o boato, tá. Você não tem nada a dizer?"
"Não é boato."
"Ha?" Fiquei um pouco parada.
Um brilho passou pelos olhos do Rafael, ele virou uma página devagar e disse:
"Que eu sou seu professor particular. Isso não é boato."
Abaixei a cabeça envergonhada.
Por um momento não tive coragem de falar. Porque eu também tinha espalhado que o Rafael era meu namorado.
Pelo jeito dele, ele ainda não sabia disso.