O Ministério Público formalizou a denúncia contra Roberto Fonseca.
A opinião pública contra os Vieira também desandou. Uma enxurrada de pessoas atacava Marcelo sem piedade, chamando-o de homem sem caráter.
Na época do namoro, ele havia feito uma corte extravagante. O romance entre o herdeiro de um dos maiores grupos empresariais da capital e a brilhante perita criminal havia sacudido as redes sociais.
O vídeo daquela proposta ainda circulava por aí.
Era um dia de inverno com neve caindo. Marcelo estava ajoelhado diante dela, o olhar quase reverente:
"Val, você quer casar comigo?"
"Quero dedicar minha vida inteira a te amar, a te proteger, a estar ao seu lado."
No vídeo, o rosto de Valentina estava corado, com uma timidez rara nela:
"Antes de responder, você precisa me responder uma coisa."
"Por que você gosta de mim?"
Marcelo sorriu:
"Por muitas razões. Você é linda, genuína, corajosa, justa..."
"Mas o mais importante é que você tem uma alma que brilha."
A Valentina forte e obstinada era tão luminosa que Marcelo havia sentido o desejo de protegê-la pelo resto da vida.
Valentina se deixou tocar. Aceitou o anel.
Os dois rostos congelados na neve foram eleitos pelos internautas como a cena mais bonita do ano.
Tanto quanto haviam sido celebrados, foram amaldiçoados agora.
Falou tudo isso na proposta e depois tratou a Valentina daquele jeito. Que vergonha.
As ações dos Vieira despencaram. O conselho de administração não escondia mais o mal-humor com Marcelo.
Marcelo se fechou no quarto por horas, sem querer sair.
Até que Júlia invadiu o cômodo aos soluços.
"Marcelinho, essas pessoas são injustas demais."
"E a Val também! Eu não fiz nada daquilo! Os vídeos e as provas com certeza são todos montados com inteligência artificial."
Marcelo levantou a cabeça devagar. O olhar foi pousando nela.
Júlia emudeceu na hora.
Ela conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que Marcelo usava quando lidava com traidores que roubavam segredos corporativos da empresa.
Frio. Sem emoção. Como se estivesse olhando para alguém que já estava morto.
O medo faiscou nos olhos de Júlia. Ela recuou sem perceber.
"A culpa é sua..."
"Se não fosse por você, Val nunca teria me deixado."
Marcelo murmurou para si mesmo, levantando devagar e se aproximando de Júlia:
"Basta ela se acalmar e vai me perdoar com certeza..."
Na delegacia, Valentina tinha um papel de desenho à frente e os olhos fixos em Roberto Fonseca, do outro lado do vidro. A voz era firme:
"Me diz quem está por trás de você."
Roberto se agitou, agarrando aquela chance como se fosse uma tábua de salvação:
"Se eu contar, me deixam com vida?"
"Me arrependo, juro que me arrependo de tudo."
"Não foi de livre vontade, eles me mandaram atear fogo. Me perdoa, por favor."
Ele chorava e gritava, com lágrimas e ranho espalhados pela gola da camisa. Não restava nenhum traço do presidente altivo do grupo Fonseca.
Valentina cerrou os punhos com força, usando tudo que tinha para reprimir o impulso de cruzar aquele vidro.
Matar tanta gente e ainda querer sair impune?
Mesmo que tivesse recebido ordens para o incêndio, o que justificava o que ele havia feito com a irmã dela?
Lixo. Escória. Merecia apodrecer.
Mas agora, encontrar quem estava por trás de tudo era o que importava.
Valentina relaxou o tom, assumindo uma postura de negociação:
"Se você colaborar, a gente pode conversar."
"Começa me dizendo quem é essa pessoa."
Os olhos de Roberto acenderam com uma esperança desesperada. As palavras saíram em torrente:
"A família Fonseca cresceu com o apoio deles. Por isso não me atrevia a desobedecer..."
"Na verdade eu só fazia o que me pediam, transportar mercadoria, dar cobertura, prender algumas pessoas. Matar foi a primeira vez de verdade..."
"Não posso entrar em contato com eles por iniciativa própria. São eles que chegam até mim. O que eu sei do meu contato é que ele é magro e alto..."
Quando o interrogatório terminou, o retrato estava pronto na mão de Valentina.
A mão ainda doía com as sequelas, uma dor surda que não ia embora, mas ela soltou um longo suspiro e sentiu o peito mais leve.
Levantou e entregou o retrato ao chefe.
O chefe ficou visivelmente sem jeito:
"Val, você continua sendo a melhor. Não tem como ficar sem você aqui."
"Sobre o que aconteceu antes, realmente sinto muito..."
"Não precisa dizer nada." Valentina o cortou. "Só prende essa organização logo."
"Claro, claro..." O chefe enxugou o suor frio da testa. "Ah, tem alguém querendo te ver."
Valentina franziu a testa, empurrou a porta e saiu.
Marcelo estava do lado de fora, os olhos iluminados ao vê-la.
Ela de repente se lembrou do dia em que o havia conhecido.
Ele havia aparecido na delegacia por conta de um assunto qualquer e a encontrou trabalhando.
Na época, ele também havia olhado para ela daquele jeito. Com uma admiração que não tentava esconder.
Antes de sair, havia lhe dado um cartão:
"Boa tarde, senhorita. Meu nome é Vieira."
"Teria o prazer de te conhecer melhor?"
Ela acreditava que naquele momento Marcelo havia gostado dela de verdade.
Mesmo que os motivos não fossem puros, a admiração no olhar dele não era fingida.
Pena que depois...
Valentina não quis seguir esse pensamento. Perguntou com frieza:
"O que você quer?"