Fomos interceptados no estacionamento.
Sofia havia conseguido uma arma de algum lugar. Coberta de sangue e vômito, parecia um espectro bloqueando a entrada da garagem.
"Morram, seus malditos!"
Ela gritou e puxou o gatilho.
Bang!
Rafael me empurrou com força para o lado.
A bala passou roçando o braço dele, abrindo um corte que pingou sangue.
Ele não recuou. Pelo contrário, avançou direto na direção da arma.
Como um leão que acabou de ser provocado.
Sofia entrou em pânico e disparou mais vezes, mas a mão tremia tanto que nenhuma acertou.
Antes que o último tiro saísse, Rafael já estava na frente dela.
Agarrou o pulso dela com uma das mãos e torceu com força.
Um estalo seco e agudo. Sofia soltou um grito cortante e a arma caiu no chão.
Rafael a arremessou com um chute que a mandou voar alguns metros, até bater com força na parede. Ela não levantou mais.
Nesse mesmo instante, as sirenes finalmente soaram lá fora.
As viaturas chegaram em disparada. O esquadrão especial cercou a mansão por completo.
Tudo havia terminado.
Rafael estava encostado na lateral do carro, a perda de sangue deixando o rosto dele branco como cal.
Mas os dedos continuavam fechados em volta da minha mão.
"Lara." Ele me chamou com a voz fraca.
"Estou aqui, estou aqui." Chorei enquanto rasgava a barra do vestido para improvisar um curativo. "Não fala, a ambulância já vem."
"Me promete." Ele fixou os olhos nos meus. "Não foge. Nessa vida, não foge."
Olhei para esse homem que havia trocado a própria vida pela minha sem hesitar, e as lágrimas caíram na mão dele.
"Não fujo mais." A voz saiu embargada. "Mesmo que você seja um abismo, não fujo mais."
Ele sorriu.
Era o sorriso mais genuíno, mais livre que eu já havia visto nele.
Depois, a cabeça tombou para o lado, e ele desmaiou.
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Epílogo
Três meses depois.
A notícia do casamento do presidente do Grupo Venturi sacudiu a cidade inteira.
O casamento não foi o espetáculo grandioso que eu esperava. Foi numa ilha, com apenas os amigos mais próximos.
Eu estava de vestido de noiva, de pé no meio da brisa do mar.
Rafael estava no fim do tapete vermelho, num terno branco, com menos daquela rispidez de sempre e mais de uma elegância que ficava bem nele.
Só que ao caminhar, uma leve irregularidade no passo ainda traía a ferida daquela noite, carregada como lembrança de quando ele se jogou na frente de uma bala por mim.
Sofia havia enlouquecido.
De verdade.
Diziam que na prisão ela ficava horas encarando a parede e rindo sozinha, repetindo que era a herdeira da família Venturi.
O homem por trás dela também foi desmantelado por Rafael até a última pedra, e a empresa foi à falência completa.
Quanto à postagem anônima do fórum.
Na véspera do casamento, Rafael havia publicado uma mensagem fixada:
Nunca existiu filha verdadeira nem impostora. Desde o dia em que ela entrou pela porta da família, dez anos atrás, ela é minha única família e meu único amor. Quem tocar nela, toca em mim.
Na hora da troca de alianças, Rafael disse baixinho:
"Lara, você sabia que eu aprendi um pouco de química?"
Ergui uma sobrancelha. "É mesmo? O que o senhor aprendeu?"
Ele pousou os lábios nos meus, a voz saindo grave e suave ao mesmo tempo:
"Dopamina mais fenilalanina, com uma pitada de ocitocina. Essa é a equação química do meu amor por você."
Sorri e retribuí o beijo.
"Não só isso, senhor Venturi. Tem que somar uma meia-vida de duração indefinida."
A brisa do mar passou por nós. O sol estava perfeito.
Pensei que eu, esse pássaro preso que passou dez anos se debatendo no escuro, havia finalmente encontrado o lugar que era meu.
Não era uma gaiola.
Era o abraço dele.
(Fim)