País estrangeiro. Hospital.
Valentina acordou de um sono longo e profundo e a primeira coisa que viu foi um rosto de traços refinados.
Sérgio Cavalcante estava recostado na beira da cama, os olhos fechados. As pestanas compridas projetavam uma sombra suave abaixo dos olhos. A frieza habitual daquele rosto havia cedido lugar a uma expressão cansada e, com isso, algo nele parecia mais humano, mais próximo.
Para ser honesta consigo mesma, Sérgio era o homem mais bonito que ela havia visto na vida.
Marcelo era atraente, mas em presença e distinção ficava um passo atrás de Sérgio.
Mas o que ele estava fazendo ali?
Valentina se mexeu sem querer. Sérgio acordou num segundo.
Ele esfregou levemente o centro da testa, colocou os óculos:
"Acordou? Está com sede?"
Fez a pergunta mas já havia se levantado para pegar um copo d'água morna antes mesmo de ouvir a resposta.
Valentina aceitou e foi bebendo em goles pequenos, sem saber onde enfiar a cara:
"Desculpe o transtorno..."
"Não foi transtorno nenhum." Sérgio a encarou com uma calma que carregava um leve tom de repreensão. "Mas a senhorita Ramos desmaiar assim que desceu do avião me assustou um pouco, devo admitir."
Valentina desviou o olhar, culpada.
"Fratura cominutiva nos dedos, lacerações em múltiplos pontos, toxinas ainda no organismo..."
Sérgio foi listando um por um, então soltou uma risada fria:
"Senhorita Ramos, tem mais alguma surpresa que eu ainda não sei?"
Valentina foi baixando a cabeça aos poucos. Parecia uma aluna sendo repreendida.
No fim, foi o próprio Sérgio quem suspirou:
"A culpa é minha. Não imaginei que Marcelo fosse uma besta dessas."
Valentina ficou ainda mais sem jeito:
"Não. O senhor já me ajudou demais."
Eles se conheceram num caso.
A família Cavalcante era poderosa, e justamente por isso acumulava inimigos. A irmã mais nova de Sérgio havia sido sequestrada por uma organização criminosa, e a família inteira entrou em pânico.
Valentina, com base na descrição de testemunhas, havia desenhado o rosto dos criminosos com precisão e a menina foi resgatada com vida.
A princípio, Sérgio era apenas mais um familiar grato entre tantos outros.
Mas um dia ele apareceu na frente de Valentina e disse:
"Vou voltar para o exterior em breve. Antes de ir, tem algo que preciso te dizer."
"Valentina, eu gosto de você."
Valentina ficou completamente sem palavras, com o rosto branco de susto.
Ela gaguejou:
"Eu já tenho namorado..."
Sérgio levantou os olhos para ela. Por baixo dos óculos, o olhar era fundo e difícil de ler:
"Ainda não são casados. Ainda tenho chance, não tenho?"
"Obr... obrigada, mas meu relacionamento está muito bem." Valentina foi delicada mas direta. "Espero que o senhor me entenda."
Sérgio ficou olhando para ela por um momento. O silêncio deixou Valentina desconfortável.
"Tudo bem."
Ele não pressionou mais. Apenas deixou o número de celular com ela antes de partir.
"Qualquer coisa, pode me chamar."
Quando a irmã estava sendo ameaçada, Valentina havia pensado em pedir ajuda a Sérgio. Mas as notícias da família Cavalcante no exterior diziam que ele havia sofrido um atentado terrorista e estava inconsciente com um ferimento de bala.
Quando ele acordou e voltou correndo ao país, mesmo ferido, a irmã já havia fechado os olhos para sempre.
Lembrando disso, Valentina fechou os olhos com uma expressão de dor:
"A culpa é toda minha. Eu que a matei..."
O arrependimento e a culpa vieram como uma maré, a afogando. Ela se encolheu involuntariamente, tremendo.
"Senhorita Ramos?" Sérgio percebeu na hora que algo estava errado. "Valentina!"
Valentina sentia que o ar havia sumido. A alma havia se separado do corpo. Cada articulação estava rígida demais para se mover.
Ela reconhecia. Era a somatização da depressão em crise.
"Se concentra!"
O rosto de Sérgio mudou levemente. Ele envolveu o pulso dela com a mão:
"O erro é de Marcelo. Você não pode se punir pelos erros dos outros."
"Além disso, Marcelo ainda está tranquilo lá fora. O criminoso ainda está solto. Você vai cair agora?"
Era verdade.
Quem havia errado ainda não havia pagado por nada.
As almas que morreram no incêndio ainda não tinham descanso.
Ela não podia parar aqui.
Valentina respirou fundo e foi, devagar, recuperando a calma.
Sérgio soltou o ar aliviado, mas os dedos que tocavam a pele delicada do pulso dela demoraram a se afastar.
Ele manteve a expressão neutra:
"Chamei um dos melhores cirurgiões do mundo. Depois da avaliação, a conclusão é que sua mão tem chances reais de se recuperar."
"O caso do Roberto Fonseca também não é simples. Seus pais estavam investigando uma organização de crime transnacional quando conseguiram algumas provas. Foi por isso que Roberto ateou fogo e os matou."
"E essa organização é a mesma que sequestrou minha irmã."
Sérgio encontrou o olhar de Valentina:
"Muita gente foi destruída por eles. Que tal a gente arrancar isso tudo pela raiz, juntos?"
Valentina o encarou por um longo momento. A luz que havia se apagado no fundo dos seus olhos começou, aos poucos, a reacender.