Marcelo não tinha a menor cabeça para trabalho naquele momento.
Respondeu ao secretário de qualquer jeito:
Deixa isso pra lá. Foca na festa de aniversário.
O secretário não ousou mandar mais nada.
Ela ficou olhando para a petição de divórcio que tinha nas mãos, com um suor frio escorrendo pelas costas.
Todo mundo sabia o quanto Marcelo adorava a esposa. Tratava Valentina como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ela havia invejado aquele amor todos os dias, nunca imaginando que um dia veria isso. E ele ainda estava assim, completamente alheio, sonhando com o próximo aniversário dela.
Como ela ousaria abrir a boca?
Só lhe restava esperar ele descobrir sozinho.
Na data do aniversário de Valentina, Júlia apareceu na festa toda produzida.
Marcelo estava de terno impecável, girando o copo na mão com um certo nervosismo.
Fazia dias que ninguém conseguia localizar Valentina.
Em teoria, enquanto ela estivesse na capital, não escaparia do seu alcance.
A menos que...
Impossível. Mesmo que tivesse saído da cidade numa birra, haveria algum rastro. Ele não havia encontrado absolutamente nada.
O canto do olho captou Júlia resplandecente ao lado dele. Marcelo franziu a testa:
"Julinha... na verdade, você podia dar uma saída daqui. A Val com certeza não vai querer te ver."
Júlia ficou paralisada.
Ela mal acreditava no que estava ouvindo. Marcelo nunca havia falado isso com ela.
Sua voz saiu magoada:
"A Val ainda tem muitos mal-entendidos comigo. Eu só queria explicar pessoalmente..."
"Eu sei que você está bem-intencionada, mas o pai dela... ela já está com o humor arrasado, não quero deixá-la pior ainda."
A postura de Marcelo era incomum. Resoluta.
Júlia não conseguiu mais sustentar o sorriso no rosto. O rancor nos olhos dela estava quase transbordando.
Ela sempre havia achado que conseguiria tomar o lugar de Valentina. Não havia percebido o quanto Valentina ocupava dentro de Marcelo.
"Artur, por favor, acompanhe a senhorita Fonseca até a saída."
Vendo que ela não se movia, Marcelo chamou o segurança com um gesto.
O segurança se posicionou diante de Júlia e fez um gesto educado de "por favor".
Júlia enrijeceu por inteiro.
As pessoas ao redor inevitavelmente notaram e começaram a cochichar.
"Marcelo e a Júlia não eram muito próximos? Achei que iam acabar ficando juntos..."
"Que nada. Marcelo só tem olhos para o tipo da Val. Uma mulher inteligente, corajosa, realizada. Não vai se interessar por uma moça sem substância."
"Nossa, a filha dos Fonseca sendo escoltada para fora. Que vexame."
Júlia sentiu as palavras como tapas no rosto. Ficou sem espaço para respirar.
Ergueu a saia e foi saindo, mas na metade do caminho se virou para Marcelo:
"Marcelinho, você tem certeza que ela vai voltar?"
"Claro que vai." A voz dele carregava impaciência. "A gente combinou que eu ia estar ao lado dela em cada aniversário. Ela nunca falta com a palavra."
Júlia soltou uma risada sarcástica e foi embora.
Marcelo ficou segurando o buquê de tulipas que havia preparado com tanto cuidado, o rosto suavizando.
Nesses dias sem Valentina por perto, ele havia sentido uma confusão e um pavor que nunca havia experimentado antes.
Ele admitia que, no começo, havia se aproximado dela com a intenção de proteger Roberto. Mas quando pensava bem, havia tantas outras maneiras de calar alguém. Se havia escolhido o caminho do amor e do casamento, era porque Valentina havia o atraído de uma forma que ele não conseguia resistir.
Exatamente como os convidados diziam. A alma de Valentina brilhava de um jeito que o havia prendido sem que ele percebesse.
Marcelo tomou uma decisão. Quando ela voltasse, ele ia se desculpar de verdade, com calma e com cuidado.
Se ela insistia em punir Roberto...
Talvez não fosse impossível.
Júlia só não queria ser filha de um criminoso. Ele podia encontrar outras formas de fazer Roberto pagar, sem precisar de processo judicial. Assim Valentina ficaria satisfeita.
Quanto mais pensava, mais aquela solução parecia perfeita. Um sorriso foi surgindo no rosto dele aos poucos.
Só que os minutos foram passando e a aniversariante não aparecia.
O bom humor foi deslizando, cedendo lugar a uma inquietação crescente.
Marcelo pressionou os lábios e ficou olhando fixamente para a porta.
O secretário estava perto de chorar:
"Senhor, que tal a gente ir embora? A senhora deve ter tido algum imprevisto..."
"Não. A gente combinou de passar o aniversário juntos."
Marcelo demonstrou uma teimosia surpreendente:
"Ela sabe que estou aqui. Vou esperar."
Como Marcelo não ia embora, os convidados ficaram sem saída e esperaram também, sem jeito.
O céu foi escurecendo. A lua subiu entre as árvores.
O ponteiro dos segundos continuou dançando. Ao longe, o sino do Ano Novo começou a soar.
Já era o primeiro dia do ano novo.
Já havia passado da meia-noite.
A pessoa que havia prometido passar todos os aniversários juntos não havia aparecido.
O secretário olhou de soslaio para o rosto de Marcelo e encontrou uma expressão coberta de gelo.
"Você disse que chegou um documento na empresa. O que era?"
No silêncio sufocante, a pergunta veio do nada.
A hora havia chegado. Finalmente.
O secretário engoliu em seco, tirou o documento da bolsa com as mãos trêmulas e entregou.
Marcelo abriu. A primeira coisa que seus olhos encontraram foram as palavras "petição de divórcio".
Que impacto.
Ele ficou estático no lugar, sem nem conseguir processar como havia sua própria assinatura naquele papel.
Só um pensamento ecoava dentro dele.
Valentina havia desistido dele.