No quinto ano de casada com Rafael, eu já estava cheia de queixas.
Ele tinha a audácia de me impor regras de casa. Proibição de gastar dinheiro. E eu ainda tinha que servi-lo por cima.
Aí renasci aos dezoito anos. Meu marido, um homem sem um tostão. E eu, herdeira do homem mais rico do país, nadando em dinheiro.
Decidi aproveitar enquanto ele ainda era jovem e ingênuo. Ia trazê-lo para morar comigo, colocar tudo nos meus termos e reaver o que era meu.
Joguei um maço de notas na mesa e disse, muito satisfeita comigo mesma:
"Rafael, quanto você precisa pra eu te sustentar? Pode falar sem medo."
Rafael: ???
Meu pai era o homem mais rico do Brasil. Só que eu perdi minha mãe muito cedo, e ele compensou a ausência enchendo minha conta bancária todo santo dia.
O resultado foi que, quando a fortuna da família cresceu de verdade, eu só sabia mesmo era gastar.
Meu pai foi perdendo a esperança em mim e passou a sonhar que seria meu filho quem herdaria os negócios da família.
Por isso, quando completei vinte e cinco anos, ele arranjou um casamento por conveniência. Queria alguém de confiança que fosse capaz de me por na linha.
Rafael Vian. O filho legítimo da família Vian, que tinha sido reencontrado pela família dois anos antes.
Família compatível, talento fora do comum, caráter impecável. Praticamente o candidato perfeito para qualquer pai que quisesse casar a filha.
Com a intermediação do meu pai, Rafael e eu nos encontramos para um jantar de apresentação.
Saí de lá completamente apaixonada. Foi amor à primeira vista da minha parte.
Mas parece que ele não ficou muito impressionado comigo.
Mais tarde fui descobrir que a gente tinha estudado na mesma faculdade.
Usei isso como desculpa e fui atrás dele por seis meses inteiros até conseguir.
Só que, depois do casamento, Rafael largou aquela fachada educada e mostrou a cara verdadeira de marido impossível.
"Você não pode chegar em casa depois das oito da noite. E não quero aquela turma sua aqui dentro fazendo bagunça."
"Sem gastar dinheiro à toa. Cada centavo precisa ser justificado pra mim antes. Se eu descobrir que você jogou dinheiro fora com gente que não presta, vai ter que devolver."
"E por último: balada e barzinho estão proibidos."
"Ficou claro?"
Só de lembrar, eu já queria enlouquecer. Nem meu pai tinha me controlado assim na vida. Ele mesmo sumia o dia todo, mal aparecia em casa, mas ficava cheio de regras pra me dar. E o pior: meu pai ainda concordava com tudo.
Ficava até dizendo que um prego tira o outro, que o Rafael tinha mão de ferro comigo, que era pra ele continuar assim.
Que raiva.
E então, de repente, renasci aos dezoito anos.
Ali estava Rafael, comendo no restaurante universitário, como se nada fosse. Sem empresa nenhuma, ainda não tinha sido buscado pela Dona Vera, era só um universitário quebradíssimo.
Fiquei espetando o arroz com o garfo, com um sorriso frio no canto da boca.
Enquanto ele ainda era jovem e inexperiente, ia convencê-lo a vir morar comigo. Ia bancar tudo, cuidar dele, aperrear a vida dele, e desta vez seria eu a definir as regras.
Se não conseguisse virar o jogo, eu mudava de sobrenome.
Peguei minha bandeja e fui sentar bem na frente dele.
O rapaz comia com os olhos meio baixos, jeito tranquilo e elegante, cada garfada de arroz com uma calma que irritava.
Mesmo assim, era um prazer olhar.
Não era à toa que, logo de cara, eu tinha me apaixonado de um jeito completamente irracional por ele.
Na bandeja dele, além do arroz branco, só havia um pouco de batata palha e legumes refogados.
Uma refeição tão simples que dava dó.
Mordi o lábio e falei:
"Você é o Rafael, né? Achei você bonito. Queria te convidar pra jantar. O que você acha?"
"A gente podia conversar, se conhecer melhor?"
Rafael ergueu os olhos e me olhou por um segundo. Um brilho passou pelo rosto dele, mas logo deu lugar a uma leve carranca, e ele voltou a comer.
Aí o Carlão, que estava do lado dele, já começou a se agitar todo, tossindo sem parar de tanto entusiasmo.
"Moça, que coragem a sua. Quem sabe pensou que você tava só querendo puxar papo com o nosso Rafael, mas eu juro que pareceu que você queria levar ele pra casa essa noite."
Fiquei meio sem entender. Ué, não era mais ou menos isso mesmo?
Lá na minha vida anterior, quando finalmente consegui conquistá-lo, Rafael admitiu que gostava quando eu tomava a iniciativa assim.
E eu conseguia perceber claramente: quanto mais eu insistia, mais ele gostava.
Mas Rafael estava me ignorando, então resolvi investir no Carlão.
"Então te convido pra jantar. Combo especial do bandejão."
"Só me ajuda a fazer o Rafael me dar atenção."
O Carlão considerou a oferta com seriedade.
Rafael também reagiu. Franzindo levemente a sobrancelha, com o rosto sereno tingido de um vermelho discreto, estava claramente com raiva mas tentando esconder. Dava pra ver que ele tinha ouvido tudo o que eu disse.
"Não tenho tempo pra esses joguinhos de gente rica."
Fiquei parada.
O Rafael dos dezoito anos era muito mais cru e imaturo do que o dos vinte e cinco.
Se fosse o Rafael de vinte e cinco no lugar dele, com esse tipo de investida logo de cara, ele teria dobrado levemente o punho da camisa, ajustado os óculos de armação dourada, e me lançado aquele olhar gelado de cima a baixo antes de falar com desprezo:
"Carente? Mando alguém te apresentar alguém. Para de me encher o saco."
Arrogante do jeito que só ele sabia ser.
Mas qualquer versão dele me deixava de coração acelerado. Se ao menos o Rafael de vinte e cinco anos não fosse tão cheio de regras.