Naquela noite, Júlia puxou a manga de Marcelo com seu jeito habitual de criança mimada:
"Marcelinho, tenho medo do escuro. Fica comigo?"
Mas Marcelo não respondeu como de costume.
O rosto de Valentina ainda rodava dentro da sua cabeça. Aquela expressão de determinação absoluta não saía de lá, e ele estava com os nervos à flor da pele.
Depois de descobrir que ele e Júlia se conheciam desde a infância, Valentina havia brigado com ele muitas vezes, questionado muitas vezes. Mas nunca, em nenhuma delas, havia falado em divórcio.
E aquele olhar gelado, carregado de decepção, havia acendido uma fúria dentro dele num segundo, e foi a raiva que o fez dar a ordem.
Ele conhecia bem os seus homens. Não tinham mão leve.
Um arrependimento vago foi crescendo no fundo do peito.
Valentina era uma mulher forte, mas tinha uma sensibilidade à dor fora do comum, e um orgulho que não se dobrava. Ser espancada em público daquele jeito. Será que ela havia aguentado?
Quanto mais pensava, mais agitado ficava. Despachou Júlia com uma desculpa qualquer:
"Hoje tem um problema pra resolver. Descansa bem."
O rosto de Júlia enrijeceu por um instante. Os lábios se abriram como se fossem dizer algo, mas Marcelo já havia pegado o paletó e estava saindo pela porta.
A caminho da mansão, ele ligou para o médico particular e pediu que fosse na frente.
Ele só havia querido dar uma lição a Júlia. Não queria machucar Valentina de verdade.
Pensando melhor, mandou o motorista parar no meio do caminho e desceu para comprar um buquê de tulipas.
Era a flor preferida de Valentina.
Dessa vez ele havia exagerado, mas Valentina sempre foi de coração mole. Bastava ele abaixar um pouco o tom e tentar, e as coisas acabariam se resolvendo.
Divórcio. Ele jamais iria se divorciar de Valentina.
Com esses pensamentos na cabeça, Marcelo empurrou a porta da mansão:
"Val, olha o que eu trouxe..."
A pessoa que ele esperava encontrar não estava lá. No meio da sala, só havia o médico particular que ele havia chamado às pressas, olhando para ele sem entender nada.
O sorriso suave que havia se formado no rosto de Marcelo foi desaparecendo aos poucos:
"Onde está a Val?"
O médico não fazia ideia do que estava acontecendo.
Eles se conheciam bem o suficiente para que ele fosse direto:
"Como eu ia saber onde está sua mulher? Me chama no meio da noite e a paciente sumiu. Que história é essa?"
A expressão de Marcelo fechou por completo. Um frio silencioso irradiou ao redor dele.
Valentina não havia voltado.
Estava com raiva mesmo. Com raiva a ponto de não querer pisar em casa.
"Por que essa cara?" O médico estalaou a língua. "Você maltratou sua mulher, foi? Mulher quando está brava some mesmo. É do feitio delas."
"Corre atrás dela antes que piore."
Marcelo respirou fundo e abriu o celular para ligar para Valentina.
Ninguém atendeu.
Mandou mensagem. A tela devolveu um ponto de exclamação vermelho.
Ela havia bloqueado o número dele.
Ela ousou fazer isso com ele.
O semblante de Marcelo nublou. Ligou para o assistente:
"Me encontra a Valentina. Agora."
"Sim, senhor." O assistente hesitou por um momento. "Aliás, tem uma coisa..."
"O senhor não havia pedido para investigar o senhor Roberto?"
"As câmeras mostram que ele mesmo pegou a chave do porão. As serpentes atacaram por causa dele."
Marcelo ficou parado.
A imagem de Valentina deitada na cama do hospital passou pela cabeça. Aquele olhar de desespero quando descobriu que a mão estava comprometida.
Então era verdade que foi Roberto?
Ele havia ousado colocar a mão em Valentina?
"Além disso, parece que o senhor Roberto também planejou o sequestro da senhora. Ainda bem que ela conseguiu escapar."
A próxima frase do assistente caiu como uma bomba.
Marcelo deu um tropeço, por pouco não foi ao chão.