Três horas depois, as pernas de Valentina mal conseguiam se mover.
Ela se levantou com dificuldade e saiu do hospital cambaleando.
Mal pisou na calçada, uma dor violenta explodiu na nuca.
A escuridão tomou tudo. O corpo cedeu.
Quando voltou a si, estava num galpão desconhecido. O ar cheirava a poeira velha.
Alguns homens a chutaram, impacientes:
"Ei, sabemos que você acordou. Liga pro seu marido e pede o dinheiro logo!"
"A gente não está pedindo muito. Quinhentos mil e te soltamos."
"Se não..."
Um deles a olhou de cima a baixo. O recado estava dado sem precisar de palavras.
Valentina entendeu na hora. Cerrou os dentes:
"Marcelo não vai fazer nada por mim. Agora quem ele tem no coração é a Júlia."
"Para de enrolar! Todo mundo sabe que você e seu marido são apaixonados!"
O sequestrador cuspiu no chão e fez a ligação ele mesmo:
"É o Marcelo Vieira? Sua mulher está aqui comigo. Manda oitocentos mil pra minha conta em cinco minutos, senão eu mato ela!"
Do outro lado, a voz de Marcelo soou hesitante:
"Vocês sequestraram a Valentina?"
A voz de Júlia entrou logo em seguida:
"Sequestrador ainda existe, Marcelinho? Será que não é a Val que contratou alguém para fazer teatro e arrancar mais dinheiro de você?"
A voz de Marcelo esfriou num instante:
"Que bobagem. Fala pra Valentina que gente assim não pode ser tão gananciosa."
"Se tentar essa palhaçada de novo, garanto que ela não vê nem um centavo."
Desligou.
O sequestrador ficou parado, atônito. Jogou o celular no chão com raiva:
"Que droga! Quem estava fazendo teatro aqui?"
Virou-se para Valentina, rosnando:
"Inútil! Esse não era seu marido? Como ele não quer dar nem um centavo por você?"
E deu um chute forte nas costelas dela.
Um jorro de sangue subiu até a garganta. Valentina gemeu com a dor abafada.
Dói. Dói demais.
Que ódio. Que ódio imenso.
Marcelo era assim tão sem entranhas?
Os sequestradores ainda tinham alguma esperança. Depois de socos e chutes, jogaram-na de lado, esperando que ele mudasse de ideia.
À noite, eles se espalharam pelo chão e foram dormindo tortos.
Valentina cuspiu o sangue da boca. Aos poucos, foi encostando as costas na parede e foi roçando a corda que amarrava seus pulsos contra a superfície áspera.
Suportando a dor intensa, ela saiu do galpão no escuro, correndo com tudo que tinha.
Não sabia há quanto tempo corria quando enfim chegou diante da mansão.
Empurrou a porta. Encontrou Marcelo abraçado a Júlia, colocando um brinco nela com todo o cuidado do mundo.
Valentina reconheceu aquele brinco. Uma peça de coleção real do século passado, avaliada em torno de cinco milhões.
Cinco milhões. Dez vezes o que os sequestradores pediam.
Marcelo havia gastado cinco milhões de reais numa joia para Júlia sem pestanejar, mas não quis soltar quinhentos mil para salvá-la.
Valentina exibiu um sorriso de quem ri de si mesma.
"Como você se meteu nessa situação? Tanto trabalho pra fazer teatro?"
Ao perceber que ela havia entrado, Marcelo acenou com a mão:
"Deixa pra lá. Na verdade você chegou na hora certa. Vem cá gravar um vídeo pra esclarecer as coisas pro pai da Júlia. As ações da empresa dele estão despencando."
Valentina sentiu o sangue subir direto para a cabeça. A resposta saiu antes mesmo de pensar:
"Pode esquecer. Jamais."