《Irmã de Mentira, Amante Verdadeira》Capítulo 1

Existe uma pergunta famosa que circula na internet:

e se você viveu dez anos como a irmã postiça de um dos homens mais poderosos do país, e de repente a filha verdadeira aparece — o que você faz?

A resposta mais curtida tinha apenas duas palavras:

corre logo.

Fiquei olhando para aquela resposta por um tempo, o dedo parado sobre a tela. No final, dei um like.

Mas eu não tinha para onde correr.

Porque eu não era só a irmã postiça de Rafael Venturi. Era o cão que ele criou, a faca que ele afiou, e o único remédio capaz de fazer aquele homem — criado no meio da lama e do sangue de um mundo que já tinha apodrecido por dentro — dormir em paz.

Minutos antes, eu havia destruído com minhas próprias mãos um HD de valor incalculável, dissolvido em água régia em alta concentração. Era o último bilhete de entrada para mandar o rival de Rafael direto para o inferno.

Dez minutos depois de resolver aquela "sujeira", uma postagem anônima apareceu na tela do meu celular:

A verdadeira herdeira da família Venturi está prestes a voltar. O prazo de validade da impostora Lara acabou.

Cheirei o leve odor ácido que ainda restava nos meus dedos e sorri.

Prazo de validade. Talvez.

...

Faz dez anos que vivo na mansão dos Venturi.

O mundo lá fora dizia que Rafael amava a irmã mais do que a própria vida.

Mas eu sabia a verdade: aquilo não era amor. Era criação. Como se cria um animal.

Três da manhã. Laboratório privado no último andar da sede do Grupo Venturi.

O exaustor zumbia baixo, e o cheiro acre dos reagentes era mascarado por um sistema especial de aromatização. Tirei os óculos de proteção, me livrei do macacão que nunca me coube direito e revelei o vestido de alta costura que estava por baixo — completamente fora de lugar naquele ambiente.

"Limpou tudo?"

O homem estava recostado num sofá de couro a alguns metros de mim, a ponta de um cigarro apagado entre os dedos. A voz era rouca, carregada de uma languidez fria e preguiçosa que ele reservava para depois de tudo resolvido.

Rafael Venturi.

O homem que controla a família mais poderosa de toda a região. Um louco que subiu do nada, atravessando sangue e escombros. E durante esses dez anos, meu "irmão".

"Ácido fluorídrico com peróxido de hidrogênio. Não sobrou nem poeira." Fui até a pia e lavei as mãos repetidas vezes, mesmo sem nenhuma mancha. "Nem Deus recupera o que estava naquele HD."

Rafael fez um gesto com a mão. "Vem cá."

Fui sem resistir.

Ele me puxou de uma vez para o colo, enterrou o rosto no meu pescoço e inspirou fundo.

"Cheira a reagente químico." A voz carregava um leve desdém, mas os braços fecharam ainda mais ao redor de mim. "Que cheiro horrível, Lara."

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"É o cheiro do seu poder, irmão." Corrigi com a expressão vazia de emoção.

Rafael soltou uma risada baixa. A vibração do peito ecoou pelas minhas costas.

"Esses dez anos... sem essas suas mãos, quantas noites de sono eu teria perdido."

Fiquei em silêncio.

Vim de um orfanato. Era a criança mais apagada de todas. Aos dez anos, Rafael me trouxe para a mansão da família.

Naquela época ele acabara de assumir o controle dos negócios e estava cercado de inimigos por todos os lados. Ele não precisava de uma irmãzinha que só soubesse chorar — precisava de uma confidente. Alguém completamente limpo, completamente leal, capaz de fazer desaparecer tudo aquilo que não podia ver a luz do dia.

Eu tinha talento para química. Ele me deu os melhores professores e o melhor laboratório.

E eu não decepcionei ninguém. Aprendi a sintetizar alucinógenos capazes de destruir a mente de alguém com uma única inalação. Aprendi a montar explosivos com produtos do mercado comum. Aprendi a fazer corpos e evidências desaparecerem sem deixar rastro.

Era a herdeira da família Venturi para o mundo. Para Rafael, era sua "faxineira particular".

Até aquela postagem aparecer.

No caminho de volta para a mansão, sentei no banco da frente, a tela do celular acesa na mão.

A postagem já estava bombando no fórum.

Informação interna confirmada! A filha verdadeira foi encontrada! Dizem que foi sequestrada quando criança e levada para a fronteira. Tem uma marca de nascença em formato de meia-lua no pescoço! O chefão já mandou alguém buscá-la!

Aquela Lara vai se ferrar, né? Ocupou o lugar de outra por tanto tempo — esse tipo de homem, quando descobrir a verdade, vai destruí-la.

Ouvi dizer que ela também era de orfanato. A fantasia de virar princesa acabou.

...

Aposto um pacote de salgadinho que jogam a Lara no mar pra alimentar peixe.

Apaguei a tela e olhei para os letreiros de néon que passavam rápidos pela janela.

"Rafa." Abri a boca de repente.

Rafael estava de olhos fechados, descansando. Nem os abriu. "Fala."

"Quero estudar fora do país."

O ar dentro do carro congelou na hora.

Seu Jorge, no banco do motorista, tremeu levemente. O carro balançou um fio.

Rafael abriu os olhos devagar. Aqueles olhos negros como tinta me encararam com uma frieza que baixou a temperatura do carro alguns graus.

"Repete."

"Quero estudar fora." Engoli em seco, cravei a unha na palma da mão. "Minha pesquisa em química chegou num limite, tem um professor no exterior..."

Vriii!

O carro parou bruscamente no acostamento.

O vidro divisório subiu. No espaço fechado, só ficamos nós dois.

Rafael segurou meu queixo com uma força que quase partia o osso. Chegou perto do meu rosto, os olhos afiados como os de um animal que teve seu território invadido.

"Lara. Quem te ensinou isso? Hm?"

"Você viu aquela postagem do fórum?"

Minha pupila contraiu. Ele sabia.

"Achou que, quando a verdadeira aparecer, você teria que liberar o lugar?" Rafael deu um sorriso torto, o polegar roçando meus lábios, a voz perigosa e ambígua ao mesmo tempo. "Você é minha. Enquanto eu não soltar, ninguém toma o seu lugar. Estudar fora? Nem pensa. Nessa vida, você fica na mansão dos Venturi, fica do meu lado. Não vai a lugar nenhum."

O beijo que veio era uma punição — dentes e tabaco.

Fechei os olhos. Por dentro, estava gelada.

Ele estava mentindo.

Se a filha verdadeira não importava, por que nestes últimos dias os jatos particulares decolaram tantas vezes em direção à fronteira?

Por que no escritório dele apareceu um dossiê com o nome

Sofia

?

Ele estava me acalmando.

Ou melhor: estava me segurando no lugar.

Afinal, eu sabia segredos demais sobre a família Venturi. Antes que aquela "irmã verdadeira" assumisse tudo de vez, eu — a irmã postiça — não podia me tornar um problema.

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