Rafael soltou Lorenzo, ficou de pé.
A compaixão no fundo dos olhos havia sido substituída por algo frio e preciso. Ele discou um número direto: "Bruno..."
Do outro lado, a chamada foi atendida imediatamente.
Antes que Rafael dissesse qualquer coisa, Bruno falou com aquela calma de sempre:
"Sr. Duarte, amanhã ao meio-dia vou cortar um dedo."
Rafael foi lembrado por aquilo, e percebeu que amanhã era o prazo final.
Ele pressionou as próprias têmporas: "Deixa esse assunto por ora. Tem uma coisa que preciso que você faça."
"Pode falar." Bruno continuou com a mesma serenidade impassível.
"Vou te mandar uma localização. Você vem e fica de olho numa mulher." Rafael disse: "Quando eu terminar, levo ela à
Porta da Caça
."
"Entendido. Já estou indo." Bruno respondeu.
Serena ficou de boca aberta: "Bruno vai vir?"
Rafael acenou, enviou a localização: "Chega rápido."
Serena ficou apreensiva.
Todos esses anos, ela havia cruzado com Bruno incontáveis vezes.
Ele nunca havia visto o rosto dela, mas as costas, a silhueta, certamente não havia esquecido.
Estava pensando em como escapar discretamente quando Rafael deu um passo à frente.
Ele segurou a cintura dela, a expressão com um meio sorriso:
"O que a Rafaela fez, eu resolvo. Mas hoje é seu aniversário. Tudo o mais fica para depois."
Serena queria chorar. Era o aniversário dela, ela era a protagonista, não podia simplesmente sumir.
Então... trocar de roupa para parecer uma moradora do vilarejo e passar despercebida ainda dava tempo?
Os quatro saíram do quarto.
Serena processava soluções em velocidade máxima, até que chegou a uma ideia.
Ela não só precisava escapar, como precisava que Bruno não visse os filhos.
Então:
"Aluno, leva o Quinho e a Zarinha pra pegar sapo no campo!" Serena disse: "Vocês têm a mesma idade, devem ter bastante assunto!"
O
Aluno
acenou sem expressão, sem dizer nada, e achou com um gesto as duas crianças.
Serena ia seguir o grupo quando James pulou na frente: "Thea, mais uma coisa..."
Serena quis desaparecer. Ficou vendo de longe o líder da aldeia e o Tiedaner indo com as crianças.
Só que agora não havia saída.
Ela resignou, explicou o que pôde para James e então puxou Li Qianqian:
"A Qianqian trabalhou comigo no instituto, então ela também tem contribuições a dar sobre esse assunto."
James foi logo: "Qianqian, vamos conversar ali?"
"Claro!" Os olhos de Li Qianqian acenderam. Ela deu dois passos, virou e disse a Serena com emoção: "Professora Thea, obrigada por tudo. Todas as oportunidades vieram de você!"
Os colegas do instituto que estavam por perto travaram.
Alguns deles antes faziam parte do grupo de Serena.
Mas por causa do episódio do pen drive, haviam pedido para ir para o grupo de Valentina.
Agora olhavam para as costas de Li Qianqian indo ter uma conversa acadêmica com James, e sentiam como se houvesse um algodão empapado entupindo o peito.
Haviam bajulado Valentina e não ganharam nada.
E essa Li Qianqian, que havia ficado, agora tinha uma chance dessas. Aquela oportunidade deveria ter sido deles.
Arrependimento total. Era o que sentiam.
Serena olhou rapidamente para Rafael, viu que ele parecia estar numa ligação de negócios, e foi se afastando devagar em direção à biblioteca.
Não havia outra saída. Mas trocar de roupa e se maquiar de vez ainda dava.
Serena mal havia tirado o necessaire da bolsa quando uma voz masculina grave chegou: "Senhorita Serena?"
Ela ergueu os olhos. O homem era alto, com um casual que saía natural e selvagem nele, a pele morena, os traços marcados quase idênticos aos de Sandro, mas com uma presença completamente diferente.
Ele carregava um cheiro de combate.