Foi então que a voz mole de uma menininha cortou o clima estranho que havia se instalado.
Zara ainda estava no ombro de Rafael. Ela apontou para uma flor acima da cabeça: "Papai, mais um pouquinho!"
Rafael deu dois passos à frente, esperando Zara alcançar a flor.
A menina estendeu a mãozinha, colheu a flor vermelha, e foi devagar entregando para Rafael: "Papai dá pra mamãe."
Rafael sorriu, e foi com Zara encontrar Serena.
Mal olhou, o fundo dos olhos de Rafael passou por uma reviravolta.
Aquele estrangeiro de barba por fazer e aparência de quem nunca viu uma navalha, de onde tinha saído?
"Sere." Rafael chamou.
Serena se virou, e em seguida sentiu uma flor vermelha aparecer no cabelo.
Rafael se abaixou, e na frente de todo mundo, deu um beijo na têmpora dela: "Você está linda."
Serena não tinha a mesma cara grossa que ele, especialmente na frente dos moradores do vilarejo.
Ela estava prestes a dar uma dica para ele se conter, quando viu Rafaela.
Como tinha esquecido. Ela ainda tinha uma conta pra acertar com Rafaela.
Na época em que Rafaela havia feito aquilo com Henrique, ela estava com o veneno no auge, sem conseguir agir. Depois que se recuperou, Rafaela havia sumido.
E agora tinha vindo se entregar. Que bom.
Serena, ignorando o olhar de morte de Rafael para James, disse a James que conversariam mais tarde.
Em seguida, pegou as mãos dos dois meninos e foi parar bem na frente de Rafael:
"Sr. Duarte, posso falar um momento?"
O que Rafaela tinha feito com Henrique, Rafael como pai tinha o direito de saber a verdade.
E Henrique, sendo um dos envolvidos, mesmo disfarçado de
Aluno
, merecia estar presente.
Os quatro foram para um quarto interno. Serena apresentou primeiro:
"Este é o Aluno, do vilarejo do lado. Sem ninguém que cuide, vim ajudando hoje."
Rafael examinou o
Aluno
com curiosidade: "É o Aluno ou é o seu filho?"
Serena torceu o canto da boca: "O que você está dizendo, ele tem alguma coisa de parecido comigo?"
Rafael semicerrou os olhos: "Como nunca vi a cara do seu filho?"
"Ele foi pra um torneio de treinamento. Da próxima vez você vê." Serena inventou na hora.
Em seguida, ela empurrou Lorenzo levemente em direção a Rafael:
"Quinho, o que a Rafaela fez com você quando você era pequeno, conta pro seu pai."
Rafael ficou com as pupilas se contraindo: "O que quer dizer?"
"Ouve o Quinho." Serena disse.
Lorenzo ligou a atuação de nível profissional, e num instante estava com uma expressão de desamparo:
"Papai, aquela tia malvada Rafaela, desde quando eu era pequenininho ela me dizia que a mamãe não me queria!"
"Ela dizia que o papai também não me amava. Que eu era uma criança que ninguém queria!"
"E dizia que o papai tinha matado a mamãe, que o papai odiava a mamãe e me odiava também!"
"Ela disse que minha aparência era horrível. Que as outras crianças eram anjos e eu era um demônio!"
"Por causa do que ela disse, eu tinha pesadelos todas as noites. Por isso eu não conseguia dormir, porque nos sonhos todo mundo me detestava..."
Rafael, que havia começado a ouvir com o rosto cinza de raiva, foi chegando a uma fúria aberta.
No fundo dos olhos, uma intenção de matar que ele não tentava esconder.
Ele havia pensado que a introversão e o isolamento do filho eram da personalidade, e que o distúrbio de sono severo vinha daí.
Nunca imaginou. Era Rafaela.
Ele puxou Lorenzo para o próprio peito, a voz baixa e cheia de dor:
"Quinho, você é o melhor filho do mundo. O papai te ama. E sua mãe, se estivesse aqui, com certeza te amaria muito também. O que a Rafaela disse era tudo mentira. Não acredita nela. O papai vai agora mesmo fazer você se vingar."
Do outro lado, Henrique apertou a mão de Serena com força, os olhos levemente vermelhos.
Ele sentiu que a ferida no coração tinha sido curada completamente, pelo pai e pela mãe juntos.