Ali estava um termo de doação de corpo.
O assistente ficou de pé ao lado, respeitoso.
"Descobrimos que Viviane falsificou a sua assinatura e doou o corpo do pai de Mara para o laboratório de anatomia. E nos últimos dias, ela foi lá buscar o corpo e então..."
O assistente não teve coragem de continuar.
Rafael endureceu o olhar.
"Fala."
O assistente abaixou a cabeça com pressa, gaguejando por um bom tempo antes de conseguir continuar.
"Viviane foi buscar uma parte do corpo do pai de Mara no laboratório. Analisei as câmeras de segurança da casa e parece que ela deu para... o cachorro."
Um trovão explodiu dentro da cabeça de Rafael, e ele ficou paralisado.
O olhar determinado e sem volta de Mara naquele dia surgiu como uma faca rasgando direto no peito, tirando o ar dele.
Rafael levantou a mão e deu uma bofetada forte no rosto de Viviane.
"Não acreditei que você fosse capaz de chegar a esse nível de maldade."
Viviane pressionou o próprio rosto, que já estava tão inchado que havia perdido a forma original.
"Rafa, eu só queria assustá-la um pouco. Além disso, o pai dela já estava morto faz tempo. Um morto não sente mais nada."
Rafael olhou para o rosto distorcido de Viviane e sentiu um nojo e um horror que não tinha palavras.
Estava completamente irreconhecível comparado à imagem frágil e indefesa que ela sempre exibiu diante dele.
Rafael pegou das mãos do segurança um chicote mergulhado em água salgada e o acertou em Viviane com força.
"Viviane, você não é humana. Aquilo era uma vida. Você não só matou o pai de Mara, ainda queria apagar qualquer rastro que ele deixou nesse mundo?"
Com o chicote cortando a pele, Viviane quase desmaiou de dor. Ela implorava sem parar.
"Rafa, eu sei que errei. Me perdoa, por favor. Posso pedir desculpas para a Mara."
Rafael levantou o chicote novamente, com um olhar sombrio como o de quem veio de um lugar muito escuro.
"Só pedir desculpas? Vou fazer você passar por cada dor que Mara sentiu, uma por uma."
Dito isso, Rafael entregou o chicote nas mãos do segurança.
"Noventa e nove chicotadas. Nem uma a menos."
Viviane olhou para aquele chicote apavorada, o corpo inteiro tremendo.
"Rafael, não esquece que foi você quem encobriu tudo por trás. Se algo me acontecer, você também não sai limpo."
"Rafa, enquanto você me deixar ir dessa vez, juro que levo tudo para o túmulo."
Mas Rafael não olhou mais para ela. Virou-se e caminhou em direção à saída.
Já na porta, Rafael se voltou para o segurança que chicoteava Viviane, a voz fria como metal.
"Quando terminar, manda ela para o hospital psiquiátrico. Diz ao diretor que, do jeito que fizeram com Mara, é para fazer com Viviane. Com o dobro."
Dito isso, Rafael saiu sem olhar para trás.
Viviane olhou para a silhueta de Rafael se afastando e gritou com tudo o que tinha.
"Rafael, se eu não tiver paz, eu também não vou te deixar em paz."
Mas o que respondeu a ela foi apenas o som do chicote cortando o ar, uma vez após a outra.
Rafael saiu do porão, e o assistente o acompanhou com passos rápidos.
"Rafael, enquanto investigávamos Viviane pelas câmeras, identificamos que no dia do seu casamento uma outra pessoa entrou na casa."
"E alguém viu essa pessoa saindo, e parece que ela estava carregando alguém nos braços."
Rafael parou de andar na hora, e virou para o assistente com urgência.
"Quem?"
O assistente entregou uma foto nas mãos de Rafael.
Na imagem, o homem estava de lado, com um perfil de traços marcados e definidos. No colo, havia uma figura pequena e encolhida.
A menina estava curvada nos braços dele, sem que o rosto aparecesse, mas Rafael a reconheceu de imediato.
Rafael apertou a foto com força, e a dor no coração foi ficando cada vez mais intensa. Um instinto de posse que estava guardado fundo dentro dele explodiu naquele momento.
"Théo. Você teve coragem de levar a minha Mara embora bem debaixo do meu nariz."