Na penumbra do porão, Viviane estava encolhida num canto, tremendo.
De repente, a porta de ferro rangeu e se abriu.
No momento em que Viviane viu Rafael entrar, os olhos dela acenderam levemente.
"Rafa, eu sabia que você não ia me abandonar."
Viviane foi animada em direção a ele para se jogar nos seus braços.
No segundo seguinte, um chute violento a atingiu em cheio.
"Viviane, sua maldita. Você fez tudo isso com Mara pelas minhas costas?"
Um fio de sangue escorreu pelo canto da boca de Viviane. Ela se arrastou do chão com dificuldade.
"Rafa, não entendo o que você está dizendo. Você encontrou a Mara? Ela te contou alguma coisa?"
Viviane agarrou a mão de Rafael com desespero.
"Rafa, não importa o que ela disse, não acredita nela. Ela só quer se vingar da gente."
Rafael arrancou a mão com violência e pisou com força nas costas da mão de Viviane, pressionando sem piedade.
"Viviane, até agora você ainda está negando tudo?"
"Você mandou fazer aquilo no hospital psiquiátrico com Mara, a manipulou para que ela desistisse de mim de vez, e a expulsou. Uma coisa após a outra, tudo calculado com uma crueldade sem limite."
A dor cortante que subia da mão fez o rosto de Viviane se contorcer inteiro.
"Rafa, eu sei que errei. Foi porque te amo demais."
Viviane olhou para Rafael com um ar de vítima, quase implorando.
"Rafa, você também me ama, não ama?"
Rafael foi se agachando devagar na frente de Viviane, agarrou os cabelos dela com força e o olhar ficou frio como gelo.
"Amor? Uma mulher tão malvada como você não merece o meu amor. Me dá asco."
Ao ouvir aquilo, a expressão de Viviane foi se retorcendo aos poucos.
"Rafael, você se apaixonou por Mara, foi isso?"
A mão de Rafael prendendo os cabelos de Viviane parou por um instante. Flashes de tudo que havia vivido com Mara começaram a surgir um atrás do outro na sua cabeça.
Sim, ele amava ela.
Havia se apaixonado pela menina que trouxe para casa.
"Eu amo Mara. Amo muito."
Viviane ficou paralisada por um segundo, depois o olhou com um sorriso de escárnio.
"Rafael, você se apaixonou pela sua própria sobrinha adotiva. Quer virar a piada de toda Pequim? Que todo mundo saiba que você é um doente, que não poupa nem a própria criança que adotou?"
Antes que terminasse de falar, ouviu-se um baque surdo. Rafael agarrou a cabeça de Viviane e a jogou contra a parede com força.
"Fecha a boca. Eu amo Mara, e Mara me ama também. Quero ver quem vai ter coragem de rir da gente."
Viviane limpou o sangue do canto da boca com o dorso da mão e o encarou com um olhar cheio de ressentimento.
"Isso não é justo. Foi por minha causa que você adotou Mara. E agora você me diz que se apaixonou por ela?"
Rafael apertou o pescoço de Viviane com força, o olhar implacável.
"Não fala assim da minha Mara. A minha Mara é a pessoa mais linda que existe nesse mundo."
Viviane cuspiu na cara de Rafael.
"Rafael, você é um doente. Se apaixonar pela própria sobrinha adotiva é a piada mais boa que já ouvi na vida."
Rafael deu um chute com toda a força no estômago de Viviane.
"Fecha a boca."
A dor se espalhou do abdômen pelo corpo inteiro. Viviane pressionou a barriga com as duas mãos, olhando para Rafael com terror.
"Rafael, me perdoa dessa vez, tá? Eu juro que nunca mais vou aparecer na frente de Mara."
Vendo que Rafael não respondia, Viviane tentou aproveitar o momento e continuou.
"Rafa, tantos anos juntos, isso não vale mais nada diante de alguns anos com Mara?"
Antes que terminasse de falar, a porta do porão foi empurrada de repente.
O assistente entrou apressado.
"Rafael, acabei de descobrir que o corpo do pai da senhorita Mara nunca foi cremado. Foi doado para um laboratório de anatomia."
Rafael pegou os documentos que o assistente lhe entregou, e o rosto escureceu na mesma hora.