Aeroporto privativo.
Mara estava sentada na sala de espera, olhando para a escuridão lá fora, com uma expressão tranquila.
A tela grande na parede transmitia as últimas notícias de Pequim.
"O presidente do Grupo Rafael, Rafael, sofreu colapso cardíaco repentino. Sem um doador compatível para transplante, sua vida corre risco."
Os funcionários ao redor comentavam entre si com pesar.
"Dizem que Rafael tem só trinta anos. Como alguém tão jovem pode ter esse problema?"
"É o que ele merece. A filha adotiva dele ficou anos sem dormir direito pesquisando um coração artificial por causa dele, e ele foi e queimou tudo. Isso se chama karma."
Mara ouviu as vozes atrás dela, pegou o café da mesa e tomou um gole tranquilo. Os olhos não tinham nenhuma expressão.
Foi então que uma mão de dedos compridos deslizou um contrato na sua frente.
"Ouvi dizer que a família de Rafael está procurando você por toda Pequim. Você tem certeza que quer partir comigo?"
Mara ergueu os olhos e encontrou um olhar profundo e atento.
Théo a observava com uma expressão calculista, apontando para o contrato sobre a mesa.
"Ainda dá tempo de mudar de ideia."
Mara olhou para o contrato e, sem hesitar, pegou a caneta e assinou o próprio nome.
"O senhor Théo ainda duvida da minha seriedade?"
Três anos atrás, quando o projeto do coração artificial de Mara havia acabado de ser lançado, Théo já havia estendido a mão para ela.
"Trabalha comigo. Vou fazer com que o coração artificial que você pesquisou salve muito mais pessoas com problemas cardíacos."
Ela havia recusado quase sem pensar.
Naquela época, o coração de Mara era pequeno demais. Pequeno o suficiente para querer salvar apenas uma pessoa.
Théo não insistiu, mas deixou o contato dele com ela.
"As portas do Instituto Théo vão estar sempre abertas para você. É só você mudar de ideia, e eu vou estar aqui esperando."
Théo olhou para Mara e deixou um sorriso discreto escapar pelo canto da boca. Estendeu a mão na direção dela.
"Que a nossa parceria seja muito bem-sucedida."
Mara fechou a mão na dele com calma.
"Que seja."
Na casa de Rafael.
Um barulho alto e seco ecoou pela sala quando Rafael jogou o copo contra o chão com força.
"Vocês são todos incompetentes. Como não conseguem encontrar uma pessoa?"
O mordomo estava parado ao lado, tremendo.
"Além dos aeroportos privados das grandes famílias, já mandamos verificar todos os outros aeroportos e rodoviárias. Não há nenhum rastro da senhorita."
Rafael pressionou o peito com a mão. O coração doía como se faltasse um pedaço, um vazio que pulsava.
"Continuem procurando. Quero Mara de volta."
Assim que o assistente saiu, Viviane se aproximou e começou a massagear as costas de Rafael com delicadeza.
"Rafa, você não está bem. Não adianta se estressar assim."
Em seguida, olhou para ele com um olhar cheio de intenção.
"Rafa, já fizemos a festa de casamento. Não está na hora de a gente registrar oficialmente? Lá fora todo mundo está dizendo que não sou de verdade a senhora Rafael, que é tudo nome sem valor."
Rafael se virou e olhou para os olhos de Viviane, onde a ambição não se escondia mais. O amor que um dia sentiu havia evaporado, deixando só um cansaço profundo no lugar.
Rafael afastou a mão de Viviane com frieza.
"Agora o mais importante é resolver a questão do doador. O registro a gente vê depois."
Viviane olhou para a própria mão afastada, com uma expressão de quem não havia esperado por aquilo. Estava prestes a dizer algo quando o assistente entrou apavorado.
"Rafael, por causa do áudio que vazou no casamento, as ações do grupo despencaram. Várias empresas já estão cancelando as parcerias por causa das notícias sobre sua saúde."
Rafael fechou os punhos com força e chutou a mesa de centro com toda a raiva que havia dentro dele.
"Estão achando que vou morrer em breve e que o grupo vai ficar sem ninguém?"
Olhou para o assistente com uma expressão cortante.
"Marca uma coletiva de imprensa. Quero que todo mundo saiba que não há nada de errado comigo."
Viviane ouviu falar em coletiva e os olhos brilharam.
"Rafa, a gente pode aproveitar e anunciar que já somos casados. Assim ninguém mais vai poder me olhar de cima."
Rafael olhou para o jeito de Viviane calculando tudo, e a repulsa dentro dele ficou ainda mais intensa.
No dia da coletiva, boa parte da imprensa de Pequim estava presente. O salão estava lotado.
Rafael sentou-se no centro, e apesar da maquiagem cuidadosa, a palidez do rosto não desaparecia.
"Em relação às especulações recentes sobre a minha família, gostaria de fazer os seguintes esclarecimentos."
"Minha saúde está bem. Já encontrei um doador compatível, e quando o momento for certo, farei o transplante."
Mas antes que terminasse de falar, a tela atrás dele acendeu de repente, e uma silhueta familiar apareceu.
"Me ajuda a falsificar um laudo de compatibilidade de doador. Quero que Rafael acredite que encontrei um doador adequado para ele, para que ele possa destruir o coração artificial de Mara sem preocupação e me ajudar a ganhar o Prêmio de Melhor Pesquisa."
A voz de Viviane saiu pelas caixas de som e preencheu cada canto do salão, arrancando uma onda de espanto de todos os presentes.