Quando abriu os olhos, Mara já estava de volta ao quarto familiar.
Mal tentou se sentar, Rafael a puxou para o próprio peito, e até a voz dele tremia levemente.
"Mara, dessa vez você me assustou de verdade."
Rafael nem queria imaginar o que teria acontecido se o andar fosse mais alto, se ele não tivesse chegado a tempo.
Mara o afastou com frieza, os olhos sem nenhuma expressão.
"Obrigada pela preocupação, tio."
A palavra "tio" fez a mão de Rafael congelar no ar. Ele achou que ela estava com raiva, que era só isso.
"Mara, pode ficar tranquila. Não vou mais te mandar embora."
A porta se abriu antes que ele terminasse de falar. Viviane entrou com um sorriso tímido no rosto, toda cor-de-rosa.
"Rafa, faltam três dias para o nosso casamento. O vestido acabou de chegar. Você consegue dar uma olhada pra mim?"
Rafael olhou para Mara por um instante, ainda sentada ali sem expressão nenhuma, e então se levantou.
"Mara, descansa um pouco. Venho te ver mais tarde."
Assim que Rafael saiu, Mara virou a cabeça para o calendário em cima da mesa.
Três dias.
Na véspera do casamento, Mara estava no quarto arrumando suas coisas.
De repente, a porta foi arrombada com violência.
Rafael entrou com o rosto fechado, agarrou o pulso dela com força e a voz saiu gelada.
"Por que você mexeu no leite da Vivi?"
Mara ainda estava tentando entender o que estava acontecendo quando viu Viviane entrar logo atrás, o rosto inchado e vermelho, transbordando de indignação.
"Mara, eu sei que você não gosta de mim. Mas como você pode me dar alguma coisa na véspera do meu casamento e ainda rasgar o meu vestido? Você está querendo destruir o meu grande dia?"
Ao ouvir aquilo, Mara entendeu tudo de uma vez. O olhar ficou sombrio.
"Não fui eu."
Rafael apertou o pulso de Mara com ainda mais força, os olhos cheios de raiva.
"A empregada viu. Só você entrou no quarto da Vivi. Se não foi você, quem foi?"
Rafael soltou o pulso de Mara com um gesto brusco, deixando-a cair no chão.
"Mara, você me decepcionou demais."
Em seguida, olhou para o mordomo ao lado.
"Tranca a moça no sótão. Só solta depois que o casamento terminar. Quero ver que outro truque você ainda vai aprontar."
O mordomo avançou imediatamente, segurando os braços de Mara e arrastando-a em direção ao sótão.
Mara se debateu com todas as forças.
"Não fui eu, Rafael. A casa tem câmeras. É só você verificar e vai ver a verdade."
Mas Rafael agiu como se não tivesse ouvido nada. Pegou Viviane no colo com cuidado.
"Vou te levar ao hospital agora. Amanhã você vai ser a noiva mais linda do mundo."
Mara foi trancada no sótão.
A noite era longa e cortava fundo. Ela ficou encolhida num canto como uma boneca de porcelana quebrada, completamente sozinha.
A noite foi embora, e a luz da manhã chegou tímida. A casa inteira estava mergulhada na euforia do casamento de Rafael.
Ninguém se lembrou de que havia uma Mara esquecida num canto que ninguém via.
Foi quando o celular dela vibrou.
Era um número desconhecido.
"Fui te buscar."
Mara olhou para a mensagem como quem enxerga uma luz no fim de um túnel comprido.
Ela finalmente podia ir embora.
Mara foi até a janela e olhou lá embaixo para o homem que esperava em silêncio. Sem hesitar, quebrou o vidro e pulou.
Lá embaixo, o casamento havia começado.
Rafael segurava a mão de Viviane e estava prestes a colocar o anel quando ouviu o barulho de vidro se quebrando.
Por um instante, sentiu uma pontada no peito. Virou-se para olhar, mas Viviane segurou sua mão.
"Rafa, hoje é o nosso casamento. Fica aqui comigo."
Rafael desviou o olhar e voltou a segurar o anel.
De repente, o som do casamento foi interrompido por uma voz familiar saindo das caixas de som.
"Rafa, para forçar Mara a desistir do segundo recurso, você a incriminou, inventou que ela empurrou Viviane escada abaixo, fabricou o aborto e mandou prendê-la."
Rafael sentiu o sangue subir de uma vez. Logo depois, o coração começou a doer como se estivesse sendo rasgado por dentro, e um fio de sangue escorreu pela comissura dos seus lábios.
O salão virou um caos. A família de Rafael o levou às pressas para o hospital.
O médico balançou a cabeça com uma expressão grave.
"O senhor Rafael só tem uma saída: o transplante de coração. Sem isso, não há o que fazer."
Rafael se sentou na cama com dificuldade e entregou ao médico um documento.
"Já providenciei um doador com antecedência."
Antes que terminasse de falar, o assistente entrou apavorado.
"Rafael, o doador que a Viviane arranjou é falso."
O rosto de Rafael escureceu. Uma expressão de pânico e desamparo tomou conta dos seus traços.
O médico olhou para ele com uma expressão difícil de decifrar.
"Rafael, dada a urgência da situação, o único recurso agora é o coração artificial pesquisado pela senhorita Mara."
Rafael pegou o celular na mesma hora e ligou para Mara.
Mas no segundo seguinte, o rosto dele fechou.
Mara havia bloqueado o número dele.