Na suíte de lua de mel.
Rafael pousou Serena com cuidado, se abaixou e beijou a testa dela: "Sere, espera um momento."
Ele foi rápido para o banheiro.
Ainda estava com o cheiro de pólvora e sangue da arena impregnado.
Rafael se lavou completamente, depois foi enchendo a banheira.
Voltou e olhou para Serena deitada quieta. Disse: "Sere, se não acordar, vou chamar um médico."
Ele sabia que ela não queria médico, igual à última vez em que havia ficado tão mal por causa do veneno, mas recusou categoricamente.
Não estava esperando resposta nenhuma, quando a mulherzinha na frente dele murmurou levinho: "Não."
Rafael ficou levemente sem saber o que fazer.
A mão grande desceu pelo rosto dela:
"Por que a Sere tem medo de médico? Será que algum médico te fez algo de mau quando era criança?"
A voz dele era baixa e suave, como se estivesse acalmando uma criança.
Serena murmurou mais alguma coisa, ininteligível.
Rafael desistiu e disse: "Tudo bem. Espero uma noite."
Dito isso, se abaixou e tirou os sapatos dela.
As roupas dela também tinham sido atingidas por vários tipos de cheiro desagradável da arena. Rafael sabia que ela gostava de se manter limpa, então foi desfazendo o que havia para desfazer.
A água da banheira já estava no nível certo. Rafael testou a temperatura e levou Serena para dentro.
A mulherzinha no seu colo, a pele branca como porcelana, cada centímetro parecia esculpido com cuidado.
Mas por causa do veneno, ela dormia com aquela expressão serena, com toda a agressividade recolhida. Até a pintinha vermelha no canto do olho estava quieta, obediente.
Rafael sentiu algo apertar o peito de repente.
Ele lembrou da sensação quando havia sido envenenado há pouco.
O sangue fervendo, o corpo inteiro como se fosse perfurado por agulhas.
E lembrou de Túlio no momento do ataque de veneno.
As veias saltando, o suor frio escorrendo.
E a mulherzinha nos braços dele, com aquele corpo pequeno e frágil, tão leve, tão delicada. Como aguentava o veneno dia após dia?
Rafael entrou na banheira com Serena, a água chegando até o peito dele.
Ele fez Serena se apoiar no ombro dele, envolvendoa por trás.
Era uma posição que normalmente teria um outro clima, mas naquele momento Rafael não tinha nenhum pensamento desse tipo.
Ele estava pensando se Serena sentia dor quando o veneno atacava.
Todos esses anos vivendo com a sombra da morte perto, ela teria medo?
Quando enfrentava o veneno sozinha, chegaria a desesperar?
Ele apertou levemente os braços ao redor dela, os lábios pousando na lateral do rosto dela:
"Sere, vou te proteger daqui pra frente."
Mesmo que ela ainda tivesse muitos segredos que não queria contar. O futuro era longo, e ele faria com que ela sentisse segurança e confiança.
O banheiro estava em silêncio. As tranças de Serena flutuavam na água, fazendo cócegas no braço de Rafael.
Ele olhou para a parte de trás da cabeça dela, tão irregular por causa das tranças todas, e decidiu desfazê-las para que ela pudesse dormir com mais conforto.
Mas logo Rafael descobriu que era muito mais difícil do que parecia.
Ele conseguia desmontar explosivos, afrouxar nós cegos em cordas. Mas não sabia desfazer trança de mulher.
E quando sem querer puxou dois fios de cabelo dela, Rafael ficou sem saber o que fazer por um instante.
Olhou contrariado para a trança que havia destruído sem conseguir voltar ao estado original.
Era a primeira vez na vida que um problema desse tipo o deixava sem saída. Sem ninguém para consultar, Rafael fez o que podia: usou xampu e lavou o cabelo dela do jeito que conseguiu.
Tirou-a da banheira, enrolou numa toalha grande, pegou o secador.
Lembrou que nos dias em que Serena havia ficado fora de casa, ele também havia secado o cabelo de Zara.
Devia ser coisa de cabelo de mulher: enquanto passava pelos dedos, fazia uma cócega suave.
Serena sem a defensiva de sempre era toda macia. Como um bebê.