As palavras ainda ecoavam no ar quando Mara se agarrou à moldura da porta para não cair.
Ela fechou as mãos com tanta força que o sangue no corpo pareceu congelar.
"Viviane, meu pai já morreu. Você já escapou da justiça. Por que ainda não consegue deixar ele em paz?"
Viviane a olhou com um sorriso de deboche.
"Se não fosse o seu pai me tirar da lista de premiados, o Rafael nunca teria te adotado, e você nunca teria aparecido para atrapalhar o que é meu. Já que foi você quem errou, é justo que seu pai pague a conta."
Dito isso, Viviane pegou um apito e assobiou na direção do cachorro.
No instante seguinte, o cão abriu as mandíbulas e cravou os dentes naquele pedaço de carne com violência.
Um ódio imenso fervilhou no fundo dos olhos de Mara. Ela cerrou os dentes, levantou a mão e avançou em direção a Viviane.
"Viviane, vou te matar!"
No exato momento em que a mão de Mara estava prestes a cair, dois braços fortes a empurraram com brutalidade para o lado.
Mara perdeu o equilíbrio e foi ao chão. As feridas nas costas, que mal haviam cicatrizado, rasgaram novamente. O vermelho foi se espalhando pelas costas dela inteira.
Viviane se encostou no peito de Rafael com ar de quem havia levado um susto.
"Rafa, eu só queria saber como Mara estava se recuperando. Não entendo por que ela foi me atacar assim de repente."
Rafael olhou para Mara, que estava jogada no chão, com um olhar sombrio.
"Mara, eu pensei que depois do que aconteceu no salão dos ancestrais você tivesse mudado. Mas parece que está indo de mal a pior, querendo machucar a Vivi. Você não tem mais jeito."
Mara segurou a dor que subia pelas costas e ergueu os olhos para Rafael com um desespero que já não tentava esconder.
"Rafael, me diz onde está o corpo do meu pai."
Rafael hesitou por um instante, e uma sombra de culpa passou pelos seus olhos antes de ser encoberta pela raiva.
"Seu pai já foi cremado faz tempo."
Viviane emendou imediatamente.
"Mara, seu pai morreu há tanto tempo, e o Rafael cuidou de você por seis anos. Até um cachorro criado assim já estaria domesticado. Por que você insiste em ficar presa no passado?"
Mara soltou uma risada vazia, e nos seus olhos só restava uma amargura sem fundo.
"Rafael, eu te odeio."
Ao ouvir aquilo, o rosto de Rafael fechou como pedra.
"Mara, eu te criei por seis anos e te coloquei no lugar mais alto da sociedade de Pequim. Já que você não sabe ser grata, não me culpe por não ter mais consideração."
Em seguida, Rafael virou para o segurança ao seu lado.
"A moça está tendo um surto, falando coisas sem sentido em casa. Mandem levá-la ao hospital psiquiátrico. Quando ela reconhecer os próprios erros, a gente vai buscá-la."
Os seguranças avançaram e seguraram os braços de Mara antes que ela pudesse reagir.
Mara olhou para Rafael incrédula, o rosto tomado pelo horror.
"Eu não tenho nenhum problema mental. Rafael, você não pode fazer isso comigo!"
Mas Rafael nem ao menos olhou para ela. Enrolou o braço na cintura de Viviane e subiu as escadas, deixando para trás apenas uma silhueta indiferente.
Logo depois, Mara foi arrastada até o hospital psiquiátrico.
Os médicos amarraram suas mãos à cama com firmeza. Uma agulha fria foi cravada na sua veia, e a consciência dela começou a desmoronar aos poucos.
Remédios desconhecidos foram sendo enfiados na sua boca às punhadas, e a sua mente foi se fragmentando dia após dia, sob aquela tortura sem fim.
"Me soltem! Por favor, me soltem!"
No quarto escuro e fechado, Mara batia sem parar na porta trancada, até os nós dos dedos ficarem em carne viva.
De repente, a porta rangeu e se abriu.
Uma enfermeira entrou segurando um bastão elétrico.
"A senhorita Viviane mandou dizer que, se você não aprender a se comportar, vamos ter que te dar uma lição."
Antes mesmo que as palavras terminassem, a enfermeira encostou o bastão elétrico na barriga de Mara. A descarga tomou o corpo dela de uma vez só, apagando todos os sentidos.
Mara cerrou os punhos. Aproveitando um momento de descuido da enfermeira, reuniu as últimas forças que lhe restavam, se arrastou do chão e saiu cambaleando pelo corredor.
A enfermeira gritou por socorro. Em segundos, seguranças vieram de todos os lados.
Mara foi encurralada na escada. Olhou para a janela com desespero e trepou no parapeito.
Rafael entrou pela porta principal do hospital e, ao longe, viu uma figura balançando na janela do segundo andar.
O coração parou. A dor no peito foi tão forte que ele esqueceu de respirar.
"Mara, não!"
Mara apenas o olhou por um instante, e então pulou sem hesitar.
Rafael correu como um louco e conseguiu ampará-la nos braços antes que ela tocasse o chão. Ela mal respirava.
"Mara, me perdoa. Vou te levar para casa agora, tá bom?"
Mara ergueu a mão com dificuldade, os olhos apagados como cinza fria.
"Eu já não tenho mais casa."