O chicote rasgou o corpo já enfraquecido de Mara com uma dor que não tinha nome, espalhando-se por cada centímetro da sua pele como brasa viva.
Com as noventa e nove chicotadas, as costas de Mara estavam completamente em carne viva.
As memórias de tudo que havia vivido foram surgindo uma a uma diante dos seus olhos, como fotogramas velhos e desgastados.
No momento em que Mara estava prestes a desabar, pareceu enxergar, num lampejo de consciência, uma silhueta correndo em sua direção como se estivesse fora de si.
Rafael olhou para Mara, encharcada de sangue, e sentiu algo dentro de si se partir.
Ele a envolveu nos braços com força, e quando falou, havia uma angústia que ele não conseguia esconder.
"Mara, o que eu faço com você?"
Mara forçou os olhos a abrirem e encarou Rafael com um olhar cheio de escárnio e resolução.
"Rafael, as noventa e nove chicotadas que você levou por mim, considere que acabei de devolver cada uma delas."
"Não te devo mais nada."
Dito isso, Mara afundou no desmaio.
Rafael ficou olhando para ela, imóvel, tomado por um pânico imenso. Apertou-a contra o peito e saiu correndo.
"Mara, não dorme. Vou te levar ao hospital agora."
Quando ela abriu os olhos, o cheiro forte de antisséptico preenchia o ar.
Mara tentou se sentar, mas foi envolvida num abraço familiar antes mesmo de conseguir.
"Mara, você finalmente acordou. Você sabe que ficou inconsciente por uma semana inteira?"
Mara afastou Rafael com frieza.
"Tio, por favor, guarde as distâncias."
A palavra "tio" congelou o sorriso no rosto de Rafael na hora.
Ele mal conseguia se lembrar de quando foi a última vez que ela havia lhe chamado assim.
Aquela menina livre e luminosa, que pronunciava o nome dele sem qualquer cerimônia, parecia ainda estar ali ontem.
Uma raiva sem origem brotou dentro de Rafael, mas ele a forçou para baixo antes que viesse à tona.
"O que aconteceu antes, vamos deixar para trás. Vou me casar com a Vivi em breve, e ela vai ser sua tia. Trate-a com respeito daqui para frente."
Mara assentiu com uma expressão vazia.
"Entendido. Vou sempre seguir as orientações do tio."
Rafael olhou para aqueles olhos parados como água morta e sentiu, sem saber de onde vinha, uma inquietação repentina no fundo do peito.
Como se algo importante estivesse escorregando devagar dos seus dedos, sem que ele pudesse segurar.
Por conta da gravidade dos ferimentos, Mara ficou internada por quinze dias antes de receber alta.
Mal saiu do hospital, foi direto ao novo laboratório que Rafael havia mandado construir para ela, para resgatar o que ainda era possível dos seus arquivos.
Mesmo com o laboratório destruído, muitos dados armazenados na nuvem haviam sobrevivido.
Assim que chegou, o professor dela veio ao seu encontro com um documento na mão.
"Mara, que bom que você chegou. Isso aqui é uma carta de agradecimento do laboratório de anatomia, pela doação do corpo do seu pai que você fez seis anos atrás."
As palavras caíram como um trovão em dia de sol.
Mara olhou horrorizada para o termo de doação que o professor lhe estendia.
O nome do falecido era o do seu pai.
Mas quem havia assinado como doador era Rafael.
A cena de Rafael pedindo que ela assinasse o documento de cremação ainda estava nítida na sua memória.
Mara pressionou a mão contra o peito com força. Sentia como se duas mãos invisíveis estivessem rasgando o seu coração por dentro, uma ferida que não fechava.
Ela foi até a casa de Rafael cambaleando, quase sem conseguir andar direito.
Precisava de uma resposta. Precisava ouvir ele explicar.
Quando entrou pelo portão, viu no pátio um cão-lobo arrastando um pedaço de carne que parecia ter ficado mergulhado em líquido por muito tempo. O animal fungava e empurrava aquilo com o focinho, como se não soubesse o que fazer com ele.
De repente, um pressentimento horrível tomou conta de Mara.
Ela apontou para o cachorro com a mão tremendo.
"O que é isso que o cachorro está comendo?"
Viviane se levantou do sofá com um sorriso satisfeito.
"Não sei o que deu nele ultimamente. Meu cachorro ficou obcecado com cheiro de formol. O Rafael foi muito atencioso e trouxe um pedaço de carne que ficou mergulhada em formol por seis anos para ele brincar."