O maior escândalo que circulava em Pequim naqueles dias era o de que Mara havia se apaixonado pelo próprio tio adotivo, Rafael.
Para expulsar Viviane, a mulher que Rafael guardava no coração, Mara teria empurrado a rival escada abaixo, provocando um aborto.
Rafael, que sempre a havia protegido como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, desta vez não teve piedade: mandou levá-la direto para a delegacia.
Na sala de mediação, mal iluminada e pesada de silêncio, Mara encarou o homem à sua frente com os olhos vermelhos, quase sem esperança.
"Rafael, para me impedir de entrar com o segundo recurso, você foi capaz de me incriminar, de dizer que eu empurrei Viviane e causei o aborto dela?"
Um lampejo de algo complexo passou pelos olhos de Rafael, mas foi sufocado antes de chegar à superfície. O rosto permaneceu fechado, distante.
"Mara, lesão corporal dolosa. Pelo código penal, a pena mínima é de três anos."
"Você ainda é jovem. Não vai querer destruir a própria vida assim, vai?"
Mara ergueu os olhos com raiva e encarou o homem que a havia criado por seis anos. O coração doía como se estivesse sendo partido ao meio.
"E o meu pai, Rafael? E o meu pai?"
Seis anos atrás, o pai de Mara havia sido atropelado e morto na rua por Viviane, que estava ao volante embriagada. Mara, que só tinha ao pai nesse mundo, tornou-se órfã da noite para o dia.
Com apenas dezessete anos, diante de uma perda tão brutal, ela estava perdida e apavorada.
Foi então que Rafael, ex-aluno do seu pai, apareceu na vida dela como se tivesse caído do céu.
Ele cuidou de tudo com calma e precisão, organizou o velório, e disse a ela que a culpada já havia sido responsabilizada perante a lei. Que ela podia ficar tranquila.
Depois disso, Rafael foi além: quis levá-la para morar com a família dele.
Os mais velhos da família se opuseram com todas as forças. Rafael enfrentou todos, ajoelhou-se no salão dos ancestrais e suportou noventa e nove chicotadas antes de arrancar o consentimento da família.
Quando saiu dali, com o corpo em carne viva, ainda conseguiu esboçar um sorriso para Mara.
"Mara, a partir de agora, vou te dar um lar."
E ele cumpriu a palavra. Com o tempo, a fez crescer como uma verdadeira princesa nos círculos mais altos de Pequim.
A semente da juventude foi brotando devagar dentro dela.
Até que, numa festa, alguém drogou Rafael, e ele, em seu delírio, encontrou Mara.
O beijo que ele deu foi ao mesmo tempo dominador e suave. "Mara, seja minha mulher."
Depois daquela noite, Mara se apaixonou de cabeça por aquele homem a quem chamava de tio.
Quando descobriu que Rafael sofria de uma doença cardíaca, ela mergulhou de corpo e alma na pesquisa de um coração artificial, só para que ele pudesse continuar vivendo.
Mas quando estava prestes a chegar com os resultados para dar a ele a boa notícia, ouviu vozes através de uma porta entreaberta. E viu, do outro lado, a mulher que havia matado seu pai.
"Rafa, você adotou Mara para me salvar, só para conseguir uma carta de perdão dos familiares dela."
"Mas já faz seis anos. Você ainda vai me manter escondida aqui, longe de tudo?"
Viviane estava sentada no colo de Rafael, os olhos cheios de uma mágoa ensaiada.
"Não me diga que você foi e se apaixonou por aquela menina."
Os olhos de Rafael hesitaram por um instante, mas ele rapidamente encobriu tudo.
"O que eu sinto por ela é jogo. Se a mantive perto foi só para vigiá-la."
O coração de Mara pareceu atravessado por mil flechas ao mesmo tempo. Foi só naquele momento que ela entendeu.
Tudo aquilo que pareceu proteção e carinho não passava de uma farsa cuidadosamente construída para ela.
Mara entrou imediatamente com o segundo recurso contra Viviane.
Mas no dia seguinte ao recebimento da notificação de audiência, Viviane apareceu na porta.
As duas estavam se enfrentando quando, de repente, Viviane soltou a própria mão do corrimão e caiu sozinha escada abaixo.
No instante seguinte, Rafael já estava lá, e mandou levá-la para a delegacia.
"Mara, a sua pesquisa do coração artificial está quase chegando ao fim. Você não quer ver todo esse esforço ir por água abaixo, vai?"
A voz grave de Rafael a puxou de volta à realidade. O olhar de Mara caiu sobre o celular dele.
Na tela, o laboratório de Mara estava encharcado de gasolina, e o cofre onde ficava o coração artificial havia sido destruído a golpes.
"Mara, o tempo que você tem é pouco. Ou você vê sua pesquisa ser destruída e acaba na cadeia de vez, ou continua aproveitando tudo o que eu te ofereço. A escolha é sua."
Mara fechou as mãos com força, deixando as unhas cravarem na palma.
"Rafael, você esqueceu por quem eu decidi pesquisar aquele coração artificial?"
O coração de Rafael estava em falência precoce. Os médicos haviam dito que, sem um doador compatível, ele não chegaria aos trinta anos.
Mas o tipo sanguíneo de Rafael era raríssimo, e encontrar um doador compatível era quase impossível.
Por isso, durante todos aqueles anos, Mara havia passado noites e noites dentro do laboratório, pesquisando um coração que pudesse salvar Rafael.
E agora faltava apenas um mês para ele completar trinta anos.
O olhar de Rafael vacilou. Uma sombra passou pelo seu rosto e desapareceu.
"Mara, a escolha entre a cadeia, ver o laboratório destruído ou continuar com o recurso está na sua mão. Sempre esteve."
A luz nos olhos de Mara foi se apagando aos poucos, até só restar um vazio de desespero.
Ela apertou os punhos com força e, por fim, disse as palavras que Rafael queria ouvir.
"Aceito retirar o recurso."
Ao ouvir o que queria, Rafael suavizou o olhar alguns instantes e estendeu a mão para acariciar os cabelos de Mara com delicadeza.
"Isso, Mara. Boa menina."
Ao sair da delegacia, Mara olhou para o céu cinzento com o coração vazio, pegou o celular e abriu um contato que havia ficado silencioso por seis anos.
"Aceito as condições de vocês. Mas tenho uma exigência: quero ver Rafael e Viviane destruídos publicamente."
Do outro lado da linha houve uma pausa, e então chegou uma voz grave e firme.
"Sem problema. Daqui a um mês eu vou pessoalmente a Pequim te receber."