O homem na frente dela tinha um metro e noventa. Era músculo do pescoço aos tornozelos.
Em frente a ele, Serena mal chegava no ombro. Era magra o suficiente para ser levada pelo vento.
"Mata ele!"
"Hike, queremos sangue! Muito sangue!"
"Parte ele ao meio!"
Com os gritos de fundo, Hike se moveu.
O corpo de tanque avançou, fazendo o chão tremer levemente.
O braço musculoso se ergueu e foi como uma machadada em direção ao pescoço de Serena.
A velocidade era absurda. Era por isso que, apesar de vários lutadores terem chegado a ele com força equivalente, nenhum tinha sobrevivido com aquela velocidade.
O público explodiu de emoção.
Aquelas almas vazias só encontravam prazer no sangue e na morte.
O tempo pareceu se alongar.
Para Serena, a visão que tinha era uma sequência de aberturas, uma atrás da outra.
O problema era que o corpo do homem na frente dela era como aço. Sem usar uma certa técnica interna, mesmo que ele ficasse parado deixando ela bater, levaria tempo para derrubá-lo.
As pontas dos dedos de Serena se concentraram. Ela estava grata pelo Fogo do Centro da Terra, que lhe havia devolvido o uso da energia interna.
Numa velocidade que nem deixava rastro, ela aplicou golpes precisos em vários pontos de pressão de Hike.
E no exato instante do soco que descia, ela recuou em velocidade.
A força do impacto do soco varreu suas tranças, fazendo os fios voarem no ar.
Foi quando Rafael voltou de atender a ligação e foi em direção às cadeiras do público.
O que ele viu parou tudo dentro dele.
Ele se focou na silhueta pequena no ringue e então olhou para o assento ao lado.
Maldição.
O lugar de Serena estava vazio.
As têmporas de Rafael pulsaram. Ele saltou da área do público e correu em direção ao ringue.
"Wow! Hike invicto!"
"Hike! Hike!"
Os gritos que chacoalhavam o espaço todo foram cortados de uma vez quando o corpo enorme de Hike tocou o chão.
Bum.
Hike caiu, levantando poeira.
Silêncio absoluto. Uma agulha caindo daria pra ouvir.
Os passos de Rafael pararam de repente.
Ele olhou para o ringue.
No ringue manchado de sangue, Serena estava parada, sem uma partícula de poeira na roupa.
No rosto dela não havia nem euforia nem decepção. Ela simplesmente olhava para o público com um olhar quieto.
Rafael sentiu algo se sacudir por dentro.
Ele não sabia nada do passado de Serena. Era como se estivesse vendo pela primeira vez a mulher no ringue.
A cena ficou congelada por vários segundos, até que alguém se levantou.
Depois mais uma pessoa. E mais outra. Uma onda de gente de pé, os olhos presos no ringue com expressões de incredulidade.
"O que aconteceu? Como Hike caiu?"
"Aquela pessoa usou magia?"
"Hike! Levanta!"
O árbitro foi examinar Hike, abaixou-se, e disse com uma expressão lastimosa: "Ele está inconsciente. A vitória é de..."
O árbitro percebeu que não sabia o nome dela.
"Sem Nome." Serena disse.
O árbitro anunciou: "Vitória de Sem Nome! Vamos saudar Sem Nome!"
Os cantos da boca de Serena subiram levemente.
Ela olhou para as cotações na tela.
Bom. Com o que aquela rodada rendia, ela tinha dinheiro para ir a vários leilões de medicamentos.
Ser farmacologista tinha um problema: custava caro demais.
Talvez valesse a pena começar a vender os próprios medicamentos no futuro.
Enquanto os pensamentos giravam, Hike foi carregado por vários homens para baixo.
A saída dos bastidores se abriu de novo, e uma figura apareceu diante de Serena.
O homem tinha por volta de um metro e oitenta e oito, sem a musculatura exagerada. Corpo alto e proporcional, e no rosto, uma máscara dourada e preta de Shura.