Depois de deixar as crianças, Rafael foi para o grupo, e Serena foi para o instituto.
Mal entrou no elevador, ela ouviu alguns colegas conversando.
"Vocês viram aquele vídeo do piano?"
"Vi. Aquilo não é em câmera rápida?" Alguém duvidou. "A mão humana pode mesmo ter essa velocidade?"
"Não é câmera rápida. Olha outras pessoas no fundo da cena. Os movimentos delas estão em velocidade normal, então dá pra confirmar."
"É mesmo! Como eu não tinha prestado atenção? E é a festa de aniversário da Valentina. Como iam colocar uma peça falsa?"
"A silhueta da moça de costas é tão bonita... E o menino do lado parece o principezinho das histórias!"
"É. Não sei quem são, mas o nível deles no piano é de nível de orquestra real."
"Orquestra real nada. Você não viu nos comentários? Eles tocaram
Cinzas
! Décadas sem alguém conseguir tocar. Esse vídeo vai fazer os fanáticos em piano caçarem essas duas pessoas."
No meio da conversa, um toque de celular soou.
"Esposa, além da minha ligação, todas as outras são insignificantes. Então não atende, não atende..."
O toque era em ritmo de rap, e a voz vinha da bolsa de Serena.
Ela respirou fundo, contendo a irritação.
Aquela música só poderia ser obra de Rafael.
De manhã ela estava com as mãos ocupadas, e depois de desbloquear com o olhar tinha pedido pra ele enviar uma mensagem pra Nina.
E aquele homem havia aproveitado para trocar o toque secretamente.
Era óbvio: quando ele ligava para ela, a melodia que tocava era o oposto daquela.
Serena tirou o celular com o rosto neutro.
Ao lado, alguns colegas trocaram um olhar com sorrisinho de deboche:
"Que coincidência perfeita. A gente acabou de falar em fanáticos de piano e o celular dela toca."
"Com um toque tão brega assim, como pode se comparar ao mestre do vídeo?"
"Nem de perto, né? Quem rouba tese de mestrado, provavelmente não sabe a diferença entre o Mi e o Fá."
Serena passou o olhar frio por eles e atendeu.
Do outro lado, uma voz idosa, carregada de emoção: "Por favor, estou falando com a Serena Viana?"
"Sou eu." Serena respondeu com calma.
"Que honra, mestra! Meu nome é Bai Cong, sou membro da diretoria da Associação de Piano do país. Pode me chamar de Xiaobai."
Serena torceu o canto da boca.
Xiaobai
? A idade do senhor?
Justo naquele momento, um colega que havia passado do andar empurrou levemente Serena de lado para sair.
O rosto dela acabou tocando na opção de alto-falante na tela.
A voz de Bai Cong preencheu o elevador com clareza:
"Ouvi a mestra tocar
Cinzas
na festa da família Viana. Alguns de nós velhos amantes do piano gostaríamos de ouvir uma vez ao vivo. É um pedido um tanto atrevido..."
Ding.
O elevador chegou ao próximo andar. A porta se abriu.
Mas o colega que estava com pressa de sair não foi embora.
O espaço pequeno ficou em silêncio absoluto, com a voz apressada de Bai Cong:
"As condições são o que a mestra quiser. Só precisamos ouvir uma vez, e podemos morrer em paz!"
"Ah." Serena respondeu, viu que ninguém saiu, e simplesmente fechou a porta do elevador.
"Não precisa de recompensa nenhuma." Ela disse. "Só me pede pra guardar segredo e bloqueiar qualquer pessoa que venha me procurar por isso."
Ela não queria se tornar uma grande mestra e ficar sendo convocada pra todo lado. Que chatice.