Túlio estendeu a mão para alcançar o remédio.
As veias do braço saltavam, a pele branca contrastando com aquele relevo escuro e denso.
Com mãos que tremiam, encontrou o frasco, tirou os comprimidos e engoliu.
A mão que agarrava a beira da cama foi relaxando devagar conforme o efeito do remédio se instalava.
Ele tossiu duas vezes, um gosto amargo e metálico subindo pela garganta.
Aos poucos se levantou, subiu na cadeira de rodas e foi até a mesa.
A luz do abajur iluminou o rosto pálido, os traços ainda mais nítidos pela magreza, mas com uma sombra sombria que os marcava.
Ele abriu o computador, digitou rapidamente uma série de credenciais, e a tela exibiu a interface da Aliança.
Túlio olhou para o indicador de login no canto inferior direito.
As pupilas se contraíram de repente.
Aquela pessoa havia entrado?
Ele foi rapidamente para os itens enviados. Nenhum registro novo.
Então acessou o bloco de notas e viu o ícone de novidade.
Clicou. Uma frase apareceu na tela:
"Quem é você? Por que usou a minha conta todos esses anos, guardando silenciosamente a segurança da Aliança?"
O olhar de Túlio parou na palavra
guardando
.
No meio daquela escuridão toda, ele de repente sorriu.
Alguém havia usado essa palavra para descrever o que ele fazia?
Há quantos anos era assim. Os irmãos sentiam pena e preocupação, porque o corpo dele era fraco, e a família Viana havia trazido inúmeros médicos sem resultado.
E Valentina... ela o evitava.
Ele parecia ser um verme que não cabia no mundo da família Viana nem em nenhum outro lugar.
E havia alguém que usava uma palavra assim para falar sobre ele.
Túlio riu por um bom tempo. Até as lágrimas quase virem.
Depois de um instante, a escuridão voltou a cobrir o fundo dos olhos.
Ele digitou uma resposta:
"Sou apenas alguém que está morrendo. Se quiser a conta de volta, pode pegar."
Era mesmo alguém que estava morrendo. Mesmo com o antídoto que certo grupo enviava regularmente, as crises estavam cada vez mais frequentes e precisavam de doses maiores.
Ele sabia. O veneno havia destruído o corpo por dentro ao longo de todos aqueles anos.
Era só uma questão de tempo.
Então ele acrescentou:
"Você acha que fiz alguma coisa boa e sou uma boa pessoa? Não seja ingênua."
A escuridão dentro dele, aquele
Sem Nome
não sabia nada sobre ela.
Na manhã seguinte, Serena acordou e percebeu que estava sozinha na cama.
Vozes vinham de fora. Era Rafael com os pequenos.
Serena saiu rápido.
Encontrou Zara abraçada à perna de Rafael, dengosa:
"Papai, prometeu ficar comigo e contar história. Onde foi?"
Rafael afagou os cabelos dela: "Que tal o papai se mudar pra cá e morar com vocês?"
Serena foi logo: "Me oponho!"
Mas uma voz soou mais alto: "Concordo!"
Era Henrique.
Então, alguns segundos depois, uma voz mole e devagar: "Também concordo!"
Serena beliscou as próprias têmporas: "Então a palavra final aqui é de vocês dois?"
Rafael levantou uma sobrancelha: "Podemos colocar em votação se preferir."
Ele disse: "Pra ser justo, Sere, chama o seu filho pra votar também."
Serena acenou rápido: "Não precisa chamá-lo."
Rafael ficou tranquilão: "Tudo bem também."
Em seguida perguntou para os dois pequenos: "Quem é a favor do papai se mudar pra cá, levanta a mão!"
Os dois levantaram ao mesmo tempo. Depois Zara, percebendo que tinha sido lenta, levantou as duas mãos.
Serena ficou sem palavras.
Rafael cruzou as pernas: "Mesmo se o seu filho votar contra, fica 3 a 2."
Casa cheia de traidores. Serena ficou com raiva: "Vocês vão à escola sozinhos hoje!"
"Papai disse que leva a mim e ao irmão!" Zara anunciou com alegria: "Mamãe só precisa ficar linda!"