Rafael não sabia por quê. Havia visto o rosto bonito de Serena incontáveis vezes, mas aquele sorriso dela naquele instante o deixou atordoado por um segundo.
Ele se recompôs, soltou o paciente e disse para a esposa: "O senhor Tomás não corre mais risco."
Ninguém no salão disse nada, porque todos tinham visto o homem imóvel no chão.
Sem risco, claro. Já não está vivo pra correr risco nenhum.
Justo naquele momento, a sirene da ambulância soou do lado de fora.
Em segundos os paramédicos foram guiados para dentro: "Onde está o paciente?"
"Aqui!" Todos abriram caminho.
O homem no chão com sangramento nos sete orifícios e várias incisões no corpo era uma imagem pesada de ver.
Os paramédicos se prepararam para o pior.
Com uma família do peso dos Viana, era melhor não ter chegado tarde demais.
O médico que liderou foi com o estetoscópio verificar os sinais.
Alguns instantes depois, a expressão dele ficou paralisada.
As pessoas ao redor viram que ele não falava nada e perguntaram nervosas: "E então?"
"O paciente tem os batimentos cardíacos estáveis. Deve estar em inconsciência temporária." O médico disse. "Pela perda de sangue, as lesões precisam ser tratadas com urgência."
Alguém perguntou: "E a respiração? A traqueia dele estava obstruída."
"Isso vamos analisar agora. Um momento."
Os médicos se dividiram: uns tratando os ferimentos, outros analisando o sangue.
A análise inicial chegou rapidamente. Um médico disse:
"O paciente não tinha problema na traqueia. O bloqueio foi causado por envenenamento, que levou à asfixia. Precisa de transfusão imediatamente."
"Não era inflamação na traqueia?" Alguém perguntou como se não pudesse acreditar.
"Não." O médico foi taxativo. "A causa exata do envenenamento ainda será investigada. Vamos precisar coletar amostras dos alimentos."
"Mas podem ficar tranquilos. Graças à sangria preventiva nos pontos corretos feita a tempo, o paciente não corre risco de vida."
Ele então olhou para a incisão na traqueia do paciente e disse com leveza:
"A única intervenção desnecessária foi o corte na traqueia. Mas sem gravidade, cuidaremos disso no hospital."
O salão ficou em silêncio absoluto.
O que Valentina tinha dito? O que Serena havia dito?
Todos que tinham achado que Serena era incompetente e tinham atacado ela agora percebiam que os ignorantes eram eles.
Mas como era possível? Valentina era discípula do presidente da Aliança Médica e consultora-chefe do instituto Duarte. Como poderia ter errado?
Por instinto, todos olharam para Serena.
E então viram uma cena que deixou todos sem palavras.
A moça que há pouco estava tratando o paciente com aquela calma absoluta tinha sido encurralada por Rafael.
O homem com um guardanapo na mão estava limpando um suor quase imperceptível na testa dela.
Serena estava aborrecida: "Não estou com calor!"
"Está sim." Rafael disse, e passou pelo lugar onde Renato tinha tocado três vezes seguidas.
A pele delicada de Serena ficou rosada com aquele tratamento. Ela queria agredi-lo, mas o homem na frente dela ela não conseguia vencer.
Que raiva.
Foi então que uma voz infantil soou:
"Doutor, o senhor também notou que a tia Serena é incrível? Ela era a melhor veterinária do vilarejo onde morava!"
"Sim?" O médico ficou curioso. "Veterinária?"
"É! Mas também tratava pessoas." Lorenzo disse. "E os bebês que ela ajudava a nascer ficavam mais inteligentes que os outros!"
As cabeças ao redor começaram a girar com aquela informação:
Valentina havia perdido para uma médica de vilarejo?