Com aquelas palavras de Rafael, a esposa do paciente encontrou uma âncora.
Quase sem pensar, ela disse: "Então por favor, senhorita Serena, ajude meu marido!"
A expressão de Valentina congelou no rosto.
Ela pousou o estetoscópio e disse com frieza: "Já que é assim, boa sorte."
Levantou sem mais uma palavra e foi embora.
Ao vê-la sair, a esposa ficou nervosa de novo.
Mas já tinha contrariado Valentina, não podia agora afastar Serena também.
Então perguntou com cuidado: "Senhorita Serena, meu marido..."
"Sr. Duarte, segura o paciente." Serena não deu atenção para mais nada. Ela pegou a lâmina e foi preparar a sangria.
Do outro lado, Lorenzo falou para os amiguinhos ao redor:
"A tia Serena é incrível. Lá no vilarejo onde ela morava, era veterinária! Quando a porca de algum vizinho quebrava a perna, chamavam ela. E ela endireitava na hora! A porca ficava saltitando, fazia de tudo, só não subia em árvore!"
"E quando um cachorro ficava com raiva, que nem hidrofobia, a tia Serena catava umas ervas e curava. Agora aquele cachorro late o dia inteiro guardando a casa!"
As expressões ao redor foram as mais variadas possíveis.
E a esposa do paciente quase desmaiou na hora.
Os pais de Valentina ouviram aquilo e começaram a ficar preocupados. Foram para um canto:
"Se o senhor Tomás não sobrar, e a família vier cobrar, a gente assume a responsabilidade."
"Essa menina cresceu sem ninguém, desde pequena foi difícil, a gente viu como ela é e sente pena. Não entregamos ela pra família Tomás de jeito nenhum."
"Claro, o que a família Tomás quiser, a gente paga. Temos sete filhos homens, algum deles tem que ajudar..."
Os dois foram combinando em voz baixa enquanto Rafael segurava o paciente, impedindo que se movesse.
Serena estava ao lado, o rosto concentrado, aplicando a lâmina nos pontos certos do paciente.
Um fio de cabelo saiu de trás da orelha dela, um detalhe involuntário que ficou gracioso.
Rafael olhava para ela e sentia que a mulher do lado era de uma beleza que perturbava.
Dizem que quem está concentrado no que faz fica mais bonito. Quando a Sere dele ficava assim, o sangue dele fervia.
As pessoas ao redor já não conseguiam mais olhar. A esposa do paciente estava quase desmaiando e foi amparada por Caio.
Renato foi até o lado de Serena, olhou para o suor na testa dela, se inclinou e pegou um guardanapo para limpar.
Rafael franziu o cenho de forma visível, e o frio no fundo dos olhos teria congelado Renato.
Mas o homem limpou o suor, se endireitou e disse com naturalidade:
"A senhorita Thea está ajudando a nossa família. Isso é o mínimo que posso fazer."
Rafael só lamentou que as duas mãos estavam ocupadas.
A própria mulher sendo cuidada por outro homem bem na frente dele.
Ótimo. Essa conta estava aberta.
No canto do salão, Túlio observava a cena no palco com um olhar escuro.
O olhar preso no procedimento de sangria que Serena estava fazendo, os dedos escondidos atrás do corpo apertando devagar.
Ele tinha percebido antes que o senhor Tomás estava envenenado. Valentina havia errado o diagnóstico.
Para quem vivia com toxina no próprio sangue desde sempre, reconhecer outra pessoa na mesma situação não era difícil.
E a técnica de Serena era claramente especializada.
O veneno pulsando ininterruptamente no sangue dele, Túlio sentiu, mesmo sendo o senhor Tomás quem estava sendo tratado, uma satisfação vicária e quase física.
Aqueles poucos minutos pareceram uma eternidade para quem estava assistindo.
Até que Rafael percebeu que não precisava mais segurar com força: o paciente havia parado de convulsionar por conta própria.
"Sere, o que preciso fazer agora?" Ele perguntou.
Alguns ao redor comentaram entre si. Uma mulher bonita era mesmo uma arma. Rafael era o dono de um instituto de pesquisa e estava perguntando o que fazer para uma subordinada.
"Não precisa fazer nada. O senhor Tomás passou pela fase crítica." Serena disse, ergueu os olhos e sorriu para Rafael: "Obrigada por ter confiado em mim."