Cruzei os braços e bati levemente com as pontas dos dedos no braço. Soltei um suspiro pesado que parecia vir do fundo do peito: — Não há necessidade.
O olhar de Bernardo ficou tenso, e ele parecia prestes a dizer algo, mas eu me antecipei e o interrompi.
— Bernardo, eu não sou tão gananciosa quanto você pensa. Para mim, ter dinheiro suficiente para as despesas e manter minha família segura e unida já é o bastante. Eu não preciso do título de Diretora de Design do Grupo Bernardo, nem preciso de você.
Dito isso, virei-me, entrei em casa e bati a porta. Recostei-me na madeira, tentando estabilizar minha respiração e minhas emoções enquanto apurava os ouvidos para qualquer movimento lá fora. Silêncio absoluto. Não dei mais atenção a ele e fui direto para o quarto.
Na manhã seguinte, assim que desci as escadas, deparei-me com Bernardo sentado na sala, segurando uma xícara de chá de gengibre. Ele exibia uma expressão suave e demonstrava uma paciência infinita enquanto conversava com a vovó. Gabriel estava ao lado, com o rosto amarrado e um olhar de puro desdém.
Ao me ver descer, Gabriel expressou imediatamente seu descontentamento: — Mana, olha só para ele!
Bernardo levantou-se e olhou para mim com um sorriso gentil: — Clarice, você acordou.
Fechei a cara e o questionei rispidamente: — Por que você ainda está aqui?
Bernardo baixou o rosto com um leve sorriso; os resquícios da neve fina em sua roupa haviam derretido, formando pequenas gotículas sob o calor do ambiente. Ele me encarou com seriedade: — Minha família tem a tradição de os mais jovens passarem a noite em vigília. Ontem, quando cheguei e vi que não havia ninguém no quintal, decidi vigiar a noite inteira.
Gabriel, direto como sempre, retrucou: — Que regra idiota é essa? Que tipo de pessoa normal fica parada no quintal a noite toda em pleno inverno? Você só quer ficar doente para dar um golpe na minha irmã e se fazer de vítima!
A vovó o repreendeu suavemente: — Gabriel.
Irritado, Gabriel deu as costas e foi para a cozinha. Em vez de usar o processador, começou a picar o recheio dos bolinhos manualmente, fazendo um barulho ensurdecedor de "pá, pá, pá" contra a tábua.
Bernardo, no entanto, agiu como se não percebesse que era indesejado. Sentou-se novamente no sofá, indicando que pretendia ficar para o almoço. Senti uma irritação súbita. Por que Bernardo achava que podia fazer o que bem entendesse? Por que ele podia ignorar minhas palavras uma vez após a outra?
Caminhei até ele, com a respiração ofegante de raiva. Minha expressão devia estar terrível, pois quando ele ergueu os olhos para mim, vi um lampejo de sobressalto.
— Venha para fora.
Essas três palavras foram o máximo que consegui dizer mantendo a compostura. A vovó, sem tirar os olhos de uma comédia na TV, soltou uma risadinha: — O novo sempre vira velho, mas o velho nunca volta a ser novo.
Saí de casa com o rosto rígido. Bernardo me seguiu e chamou baixinho: — Clarice...
Virei-me bruscamente para encará-lo, explodindo em uma pergunta quase catártica: — O que diabos você quer afinal?!
O rosto dele empalideceu por um instante, e ele desviou o olhar.
— Eu só queria tentar sentir um pouco do sofrimento que você passou.
Soltei um riso sarcástico: — E isso tem algum sentido? Bernardo, eu realmente não entendo por que você insiste tanto. Você nem gosta de mim, não é verdade?
Bernardo olhou para mim com os lábios trêmulos. Havia um brilho de desolação em seus olhos, mas ele respirou o ar frio profundamente para manter a lucidez.
— Eu não desgosto de você.
Ele mordeu o lábio inferior, e seus olhos ficaram levemente avermelhados. Não sei se era pelo frio ou por outro motivo.
— Naquela noite em que você estava bêbada, você disse que gostava de mim. Eu fiquei muito feliz. Senti que não deveríamos terminar de forma tão apressada. Clarice, eu realmente não quero desistir de você.
Passei a mão pelo cabelo, sentindo pela primeira vez que a teimosia de Bernardo era completamente irracional.
— O passado ficou para trás. Bernardo, eu estou seguindo em frente, e você deveria fazer o mesmo. Suas atitudes atuais estão realmente me incomodando.