Bernardo estendeu as mãos e me entregou o que trazia.
— São presentes que preparei para vocês. É apenas uma lembrança, você...
Antes que ele terminasse de falar, aceitei os pacotes diretamente.
— Obrigada pelos presentes de Ano Novo. Se não tiver mais nada, por favor, volte cedo. A mansão da sua família não tem aquela tradição de passar a noite em vigília (Shousui)? Como eu não estou mais lá, deve ser sua vez, não? Dizem que são os mais jovens que devem vigiar.
Um rastro de confusão passou pelos olhos de Bernardo. Obviamente, ele não sabia nada sobre essa tal vigília. E eu sabia que ele não sabia. Afinal, como a família Bernardo permitiria que ele, o detentor do poder, ficasse sentado no pátio como um cão, a noite inteira sem permissão para dormir?
A suposta "vigília" nada mais era do que uma forma de Dona Helena descarregar em mim seu ressentimento pelo fato de Bernardo não querer voltar ao país para o Ano Novo por minha causa.
Bernardo percebeu o sarcasmo em minha voz e suspirou.
— Clarice, eu sei que, devido a algumas das minhas atitudes no passado, você sofreu muitas injustiças. Da última vez você disse que não queria mais me ver; pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que não nos vermos é apenas uma forma de fuga. Acho que você deveria me dar uma chance de compensá-la.
Ele disse isso com um tom de voz extremamente sério. Encarei-o por um momento e, de repente, comecei a rir.
— Quando você foi para Londres atrás da Isadora, disse a mesma coisa para ela?
Bernardo suspirou novamente. Eu nunca o tinha visto suspirar antes; ele sempre foi a imagem da estratégia e da autossuficiência, alguém para quem nenhum problema parecia sem solução ou digno de preocupação. Ele não era do tipo que lamentava ou expunha suas emoções. Achei aquilo exótico, como se o estivesse conhecendo hoje pela primeira vez.
— Eu saí do país naquela época porque a Isadora me ligou. Ela estava muito mal na Inglaterra, sem família, sem amigos e com um casamento infeliz. Naquele momento, senti que você tinha causado tudo aquilo e que eu deveria compensá-la. Pelo menos, dar a ela um refúgio quando não tivesse para onde ir.
Soltei um riso leve: — Oh, então obrigada por pagar os meus pecados.
Enfatizei a palavra "pecados" com todo o peso possível. O rosto de Bernardo ficou rígido, e uma expressão de impotência surgiu em seu olhar.
— A Isadora mentiu. O casamento dela foi infeliz porque descobriram que ela desviou fundos da empresa do ex-marido. O ex-marido assumiu a culpa no lugar dela para que ela pudesse voltar ao país e se divorciar. Agora, ela está enfrentando as consequências legais. O que houve entre nós não foi o que você imagina; nunca aconteceu nada, e nisso você pode confiar plenamente em mim.
Sorri, usando um tom de voz provocativo:
— Não foi ela quem te enganou; foi você quem decidiu acreditar incondicionalmente nela. Mas você não acredita nela por quem ela é, você acredita porque tem a convicção de que nunca comete erros. Como cresceram juntos, você acreditou nela como se acreditasse na sua própria capacidade de nunca julgar mal as pessoas.
— Você não acredita em mim porque, desde o início, estava convencido de que eu faria qualquer coisa para me casar com você, por meios escusos. Mas, Bernardo, eu já disse muitas vezes: eu não queria. Por favor, não venha mais aqui.
Ao dizer isso, senti uma exaustão profunda. Era aquele tipo de impotência que surge quando você explica algo milhares de vezes, a pessoa promete ouvir, mas continua agindo contra a sua vontade repetidamente.
Bernardo baixou a cabeça, e o branco dos ossos apareceu nos nós de seus dedos avermelhados pelo frio. Ele ergueu os olhos para mim:
— E se fosse uma cooperação comercial?
— Pelo que sei, você não trabalha para nenhuma joalheria, nacional ou estrangeira. Suas obras são negociadas pela Shelly como sua agente com terceiros. Eu gostaria de contratá-la com um alto salário para o Grupo Bernardo, como Diretora de Design de Joias.
— O que eu posso lhe oferecer, certamente, será muito mais do que qualquer outro.