Clarice não voltaria. Ela simplesmente não queria que nenhum objeto antigo ligado a ele fizesse parte de sua nova vida.
Bernardo soltou um suspiro profundo. Ele raramente suspirava; sempre acreditara que esse gesto era um sinal de fracasso ou rendição, mas, naquele momento, não encontrava forma melhor de expressar o que sentia.
Com a ponta dos dedos pairando sobre a tela na conversa com Clarice, ele hesitou por um longo tempo antes de digitar a primeira palavra.
【Você...】
【Como tem passado nesses últimos dias?】
As palavras pareciam abruptas e deslocadas na caixa de diálogo. Bernardo olhou fixamente para elas e acabou pressionando o botão de excluir.
【Ainda há coisas suas aqui em casa. Quer que eu peça para alguém te entregar?】
Bernardo franziu o cenho, ainda insatisfeito com o tom. Ele apagava e reescrevia, polindo cada frase. Se alguém que o conhecesse no mundo dos negócios o visse naquele estado de hesitação e rigor, pensaria que ele estava redigindo um contrato de bilhões. No entanto, ele estava apenas esgotando seu intelecto para enviar uma única mensagem à ex-esposa. Uma frase que não fosse ambígua e que demonstrasse uma preocupação que não soasse fria.
Após muito relutar, ele escreveu com um toque de desânimo: 【Será que podemos não nos divorciar?】
Era uma rendição descarada, uma demonstração explícita de fraqueza. Bernardo acreditava que Clarice entenderia o peso daquelas palavras. Mas, ao enviar, o ícone de carregamento girou por alguns segundos e foi substituído por um ponto de exclamação vermelho.
Clarice o havia bloqueado.
"Ah..."
Bernardo suspirou novamente e deixou-se cair no sofá. Olhou ao redor e, pela primeira vez, sentiu que a decoração em tons de preto, branco e cinza — que antes o ajudava a manter o foco e a produtividade — era extremamente vazia e fria.
Ele se perguntou:
Será que Clarice se sentia assim quando ficava sozinha em casa?
Logo em seguida, balançou a cabeça negativamente.
Provavelmente não. Isadora também era mulher, e ela adorava decorar a casa com flores, plantas e pássaros de plumagem vibrante. Mas tudo ali naquela sala era exatamente do jeito que
ele
gostava. Como Clarice nunca havia mudado nada, ele presumiu que ela também gostasse daquele estilo. Afinal, em três anos morando sozinha, ela teria comprado algo do seu agrado se não estivesse satisfeita.
Enquanto divagava, o celular tocou. Era Dona Helena. Bernardo deslizou a tela para atender e logo ouviu a voz carinhosa da mãe: "Bernardo, querido? O pessoal da empresa disse que você não apareceu por lá nesses últimos dias. Está se sentindo mal?"
Bernardo massageou as têmporas, tentando recuperar o fôlego para responder: "Não, apenas tenho alguns assuntos pendentes para resolver."
Dona Helena soltou um longo "Ah..." compreensivo. Logo em seguida, mudou o tom: "Então vou pedir para a Isadora ir aí te fazer companhia. Ela disse que não consegue falar com você e está muito preocupada."
A recusa de Bernardo foi instintiva. "Não precisa. A Clarice pode interpretar mal a nossa relação."
Ao ouvir o nome de Clarice, o tom de Dona Helena mudou instantaneamente para o desprezo. "Bernardo, você já se divorciou daquela inútil. O que importa se ela entende mal ou não?"
"Para mim, sua prioridade agora deveria ser agilizar as coisas para oficializar tudo com a Isadora. Ai, as histórias que ela me contou sobre o ex-marido... meu coração ficou partido..."
Bernardo parou de ouvir o que a mãe dizia a partir dali. Em sua mente, ecoava apenas a frase: "aquela inútil". Ele sentiu um aperto estranho no peito.
Com uma voz calma, ele perguntou: "Era assim que a senhora falava dela antes?"
Dona Helena, pega de surpresa pela interrupção, balbuciou: "O quê?"
Bernardo repetiu pausadamente: "Durante esses três anos em que estive fora, a senhora costumava insultar a Clarice chamando-a de inútil ou de 'galinha que não põe ovos'?"
Houve um silêncio absoluto do outro lado da linha. Dona Helena chegou a soltar um risinho de deboche: "Bernardo, você está realmente tentando defender aquela mulher agora?"
"Você nunca gostou dela. Se não fosse pelo estado de saúde do seu avô naquela época, você nunca teria aceitado se casar com ela."
"Foi você quem a deixou para trás para seguir a Isadora no exterior. Por que agora está descontando em mim? Se não fosse por eu ter pegado pesado com ela nesses três anos, você acha que ela teria aceitado o divórcio tão facilmente?"
Bernardo fechou os olhos, sentindo uma onda de impotência desconhecida. Ele desligou o telefone e, observando a casa silenciosa e vasta, sussurrou para o vazio:
"Sinto muito, Clarice. A culpa foi toda minha."