A expressão de Bernardo congelou, e o olhar que ele me dirigiu era de puro espanto. Com os olhos ardendo em vermelho, repeti mais uma vez:
"Bernardo, eu não queria. Eu não quis nada disso."
Ele pareceu subitamente sem ação. Com uma pressa desajeitada, puxou alguns lenços de papel e os estendeu para mim, enquanto sua voz, antes rígida e fria, amolecia: "Eu sei que você sofreu humilhações na mansão. Eu já disse, coisas desse tipo não vão se repetir."
Um peso de impotência esmagou meu coração, e as lágrimas finalmente rolaram. O cenho de Bernardo se franziu ainda mais, e havia um traço de pânico em seu tom: "Ainda é por causa da Isadora? O que há entre nós não é o que você está imaginando."
Balancei a cabeça. O cansaço havia se infiltrado em cada osso e músculo do meu corpo, tanto que tentei falar várias vezes e a voz não saía. Olhei para ele, permitindo que as lágrimas se acumulassem no meu queixo e caíssem, sem qualquer vontade de limpá-las.
"Não é isso."
"Não é por causa dela", repeti, exausta.
Bernardo jamais entenderia que, no fim das contas, a raiz de tudo era ele. Respirei fundo, engolindo toda a amargura do passado junto com o choro. Quando levantei o rosto novamente, meu olhar estava límpido.
"O motivo já não importa mais, Bernardo. Nós já estamos divorciados."
"Não sei por que você veio até aqui, mas você realmente não deveria ter vindo."
"O melhor desfecho para nós dois é não termos mais nenhum vínculo."
Ao dizer isso, senti meu peito ficar um pouco mais leve. Levantei-me para sair, mas, ao passar por ele, Bernardo segurou meu pulso. Ele me encarava com as sobrancelhas unidas e uma fisionomia serena, mas que carregava aquela pressão autoritária inata.
"Você abandonou a faculdade pela metade. Passou todos esses anos como dona de casa, desconectada da sociedade", disse ele, com uma calma cortante. "Seu irmão é um ex-detento, sua avó é idosa e tem a saúde frágil. Mesmo que você tenha comprado uma casa, haverá muitas despesas daqui para frente. Você tem capacidade de viver de forma independente?"
Senti um calafrio no pulso onde ele me tocava. Bernardo havia descoberto que eu comprei uma casa, mas não fazia ideia de que eu era a "Sereia", a designer de joias com quem ele tentava contato desesperadamente.
Senti um riso amargo crescer internamente. Eu era alguém tão desprezível aos olhos dele que ele jamais associaria minha imagem à de uma designer promissora. Mas talvez fosse melhor assim; evitaria que ele perturbasse minha nova vida.
Forcei um sorriso no canto dos lábios: "Isso não é algo que deva preocupar o Senhor Bernardo. Afinal, como você mesmo disse, sou ambiciosa e não tenho um bom caráter. Alguém como eu dá um jeito de sobreviver em qualquer lugar."
No instante em que as palavras saíram, Bernardo soltou meu pulso como se tivesse levado um choque. Pela primeira vez em todos os nossos confrontos, foi ele quem desviou o olhar primeiro. Não disse mais nada, virei as costas e saí da cafeteria.
O vento noturno soprou em meu rosto. Avistei o pequeno quintal com a luz acesa logo adiante e apressei o passo. Aquele deveria ser o nosso último encontro; velhas pessoas e velhas histórias devem ser deixadas para trás.
Adeus, Bernardo. Para nunca mais nos vermos.
……
Após retornar de Suzhou, Bernardo, por uma raridade absoluta, passou três dias seguidos sem aparecer na empresa. Ele sabia que seu estado atual era anormal, mas sentia uma necessidade inexplicável de ficar em casa, observando os vestígios de Clarice desaparecerem lentamente.
As três pilhas de cadernos estavam espalhadas sobre a mesa à sua frente. Havia hábitos rígidos ali que nem ele mesmo notava, mas que Clarice havia registrado com uma precisão cirúrgica. No celular, ele deslizava a tela, lendo página após página de mensagens que ela havia enviado por iniciativa própria ao longo do tempo.
【Esfriou em Londres hoje, não esqueça de levar um casaco.】 【Feliz Festival do Meio do Outono. A lua em Londres também deve estar bem redonda esta noite, não?】 【Seu estômago é sensível, evite comer apenas refeições frias. Uma amiga disse que abriu um restaurante chinês muito bom na Brick Lane, tente ir quando tiver um tempo.】
Mensagens desse tipo chegavam todos os dias nos últimos três anos. Mas, na maioria das vezes, ele não respondia. E, nas raras vezes em que o fazia, era apenas um simples "Sim" ou "Ok".
Ele se lembrou subitamente das acusações dela. De fato, ele não fora um marido à altura, nem lhe proporcionara um casamento feliz. Ele subiu as escadas em direção ao closet.
Lá, as roupas, sapatos, joias e bolsas de Clarice permaneciam intocados. O silêncio daqueles objetos anunciava que aquela casa tivera uma dona; ela não levara nada consigo, como se tivesse apenas saído para fazer compras e fosse retornar a qualquer momento.
Mas Bernardo sabia, com uma clareza dolorosa, que Clarice não voltaria mais.