A serenidade habitual no rosto de Bernardo desapareceu, dando lugar à imagem que eu conhecia melhor: distante, afiado e com uma autoridade indisfarçável. Sua voz soou gélida.
"Clarice? O que faz aqui? Está me seguindo?"
Encarei seus olhos diretamente e, pela primeira vez, permiti-me um tom de ironia.
"Seguindo você? Você se valoriza demais."
Nesse momento, Bia acenou para mim do outro lado da rua: "Clarice, venha logo! O carro está esperando."
Bernardo olhou para minha amiga e a frieza em seu olhar pareceu se dissipar levemente, dando lugar a uma percepção equivocada.
"Você veio ajudar sua amiga com o divórcio dela?"
Em seguida, ele acrescentou com um embaraço raro: "Eu também vim aqui para ajudar a Isadora com o registro do divórcio dela. O ex-marido a tratava mal no exterior, e ela ficou com traumas de vir sozinha ao cartório."
Dei um sorriso desbotado. "Você não precisa me dar explicações sobre sua vida. Preciso ir."
Ao me virar, captei um lampejo de perplexidade no fundo dos olhos dele. Não dei importância. Caminhei direto para o carro de Bia.
Após o almoço, voltei para casa e recebi uma ligação de Suzhou. Era meu irmão, Gabriel. Ele havia saído da prisão, já tinha limpado nossa antiga casa e estava esperando que eu e minha avó voltássemos. Eu disse a ele que, assim que estivesse com a certidão de divórcio em mãos, levaria nossa avó de volta para casa.
Naquela época, quando os cobradores invadiram nossa casa, Gabriel tentou nos proteger e acabou ferindo gravemente um homem, sendo condenado a dez anos. O fato de ele ter conseguido uma redução de pena e liberdade condicional deveu-se, em grande parte, à influência de Bernardo.
Refleti por um momento e decidi ligar para ele. Quando ele atendeu, respirei fundo, tentando manter um tom de gratidão sincera.
"Bernardo, meu irmão saiu da prisão. Obrigada por ter cuidado dele todos esses anos. Vou me mudar hoje e passarei uns dias no asilo para acompanhar minha avó..."
Antes que eu pudesse terminar, ouvi a voz de Isadora do outro lado da linha:
"Bernardo, beba mais um copo comigo... meu coração está tão apertado..."
Ouvi o ruído de tecido se movendo, e Bernardo finalmente falou comigo, mas de forma apressada.
"Não precisa agradecer. Somos marido e mulher; cuidar do seu irmão não passa de uma obrigação."
E desligou. Olhei para a tela escura do celular com uma sensação de melancolia. Eu sabia que ele não tinha ouvido nada do que eu disse. Ele não sabia que meu irmão já estava livre, nem que meu agradecimento era, na verdade, uma despedida.
Continuei arrumando minhas malas. Depois de muito tempo, percebi que as únicas coisas que realmente me pertenciam eram meus esboços, meus documentos e algumas peças de roupa.
Todo o resto eram cadernos acumulados ao longo de três anos, preenchidos por ordem de Dona Helena para que eu decorasse as preferências da família Bernardo. A maior parte era sobre ele.
【Bernardo só usa camisas de algodão egípcio sob medida, com fios acima de 200.】
【Bernardo só usa abotoaduras de obsidiana única, com 1,2 cm de diâmetro.】
【A temperatura do chuveiro deve ser constante em 38°C. O tempo de enchimento da banheira é de exatamente 7 minutos e 30 segundos. O sabonete líquido deve ser sem fragrância, mas os sais de banho devem ser moídos manualmente até 0,5 mm de diâmetro, com óleo essencial de lavanda francesa.】
【Só bebe café Blue Mountain feito à mão, água a 92°C, infusão de 2 minutos e 30 segundos...】
Mesmo com ele fora por três anos, essas minúcias formavam três pilhas de cadernos com quase um metro de altura. Naquela casa de tons pretos, brancos e cinzas, não havia um único objeto que eu gostasse. Eu amava cores vivas e acolhedoras, decorações fofas, pinturas a óleo e flores frescas. Mas, mesmo quando Bernardo não estava, Dona Helena jamais permitiu que meus gostos aparecessem.
Eles me lembravam a cada segundo que eu não pertencia àquele lugar. Felizmente, eu estava partindo.
Deixei os cadernos sobre a penteadeira. Levei meus desenhos e documentos para o asilo e esperei até que a certidão de divórcio ficasse pronta. No dia em que a peguei, segurei a mão da minha avó com um sorriso leve.
"Vovó, resolvi tudo sobre o divórcio. Podemos voltar para casa."
Sua mão envelhecida acariciou minha cabeça com a ternura de sempre. "Se não há felicidade, devemos ir embora. Minha menina precisa estar alegre; um divórcio não é o fim do mundo."
Antes que ela terminasse, a porta do quarto se abriu. Bernardo, que não aparecia há dias, entrou segurando um buquê de lírios e cestas de suplementos. Seu olhar sobre mim carregava um desagrado contido. Após cumprimentar brevemente minha avó, ele me chamou para fora.
Eu ia tirar a certidão da bolsa e entregá-la ali mesmo. No entanto, ele falou primeiro, com uma voz fria e autoritária:
"Como você pode falar de divórcio assim, levianamente, na frente de uma idosa?"
"Casamento não é brincadeira. Não use mais isso para fazer cenários ou piadas."
Minha mão parou dentro da bolsa. Olhei para ele, incrédula. Piada? Eu tinha falado sério todas as vezes, mas ele ainda acreditava que eu estava apenas tentando chamar atenção.
Notando meu silêncio, ele continuou: "É sobre isso que você e sua avó conversam? Ela vai acabar pensando que não somos felizes."
Ao ouvir aquilo, não consegui evitar um riso amargo. Mas a mágoa represada por três anos lutou para transbordar pelos meus olhos. Com o olhar marejado, perguntei a Bernardo:
"E por acaso nós somos felizes?"