Dona Helena olhou para mim com desdém. Um sorriso de mofa surgiu em seus lábios. "Então o Bernardo voltou e finalmente tocou no assunto do divórcio com você?"
Mantive o silêncio. Nos últimos três anos, já havia suportado o suficiente da arrogância e do preconceito da família Bernardo. Sem pressa, ela ordenou que o mordomo trouxesse o documento, enquanto continuava a me ridicularizar.
"Eu sempre disse que este casamento não duraria. Você é apenas uma garota de uma família falida, ambiciosa e gananciosa. Não importa o quanto se esforce, o Bernardo jamais amaria alguém como você."
"Já que você teve a decência de aceitar o divórcio, e o Bernardo trouxe a Isadora de volta ao país, as coisas finalmente voltarão ao seu devido lugar."
Assim que ela terminou seu sermão, o mordomo atirou o acordo de divórcio em minha direção. A borda afiada do papel roçou o canto do meu olho antes de cair no chão. Ignorei a leve ardência e me curvei para recolher o documento.
Ao folhear as páginas, vi a assinatura de Bernardo. Pelo que ele disse na noite anterior, parecia não saber da existência deste papel. Não sei que método Dona Helena usou para fazê-lo assinar, mas isso já não me dizia respeito. Uma vez assinado, o documento tinha validade legal.
Guardei o acordo com cuidado na bolsa. Ao sair da mansão, o vento soprava flocos de neve contra meus ombros. Estava frio, mas meu coração sentia um calor inédito, uma leveza que eu não experimentava há anos.
Para minha surpresa, o carro de Bernardo estava estacionado ali perto. Ao me ver, o motorista abriu a porta. Bernardo, sentado no banco de trás com seu olhar costumeiro de indiferença, disse apenas: "Suba. Vou te levar para casa."
Assim que entrei, ele notou a marca vermelha no canto do meu olho. Após um breve silêncio, sua voz soou suave: "Minha mãe tem um temperamento difícil. Sinto muito que tenha passado por isso."
Apertei a bolsa onde estava o documento e balancei a cabeça. "Tudo bem." Afinal, não haveria uma próxima vez.
Bernardo mudou de assunto, mencionando o desenho que havia levado.
"A equipe de design da empresa deu um feedback. Disseram que seu esboço 'Amor Materno' é excessivamente parecido com as obras daquela designer misteriosa, a 'Sereia'. Existe uma forte suspeita de plágio."
"Por conta disso, tomei a liberdade de destruir o seu desenho."
"Clarice, mesmo que seja apenas um passatempo para você, espero que tenha consciência sobre direitos autorais. É preciso respeitar o trabalho alheio."
Enquanto falava, Bernardo me observava com um olhar de julgamento, batendo os dedos ritmadamente sobre a coxa. Naquele gesto, li seu desagrado contido. Então, ele não estava me esperando por gentileza; estava ali para me questionar e me dar uma lição.
Abri a boca para explicar, mas a vontade se esvaiu antes que as palavras saíssem. Aos olhos dele, eu nunca fui uma pessoa íntegra. Mesmo que eu dissesse que eu era a "Sereia", ele provavelmente pensaria que eu estava mentindo por culpa.
Um silêncio constrangedor se instalou no carro. Ninguém disse mais nada até que meu celular vibrou. Era uma mensagem de Bia:
【Feliz aniversário de vinte e três anos para a nossa famosa mestre do design, Sereia! Reservei um restaurante incrível, te mandei a localização. Te vejo lá!】
Passei os dedos pela tela e olhei instintivamente para Bernardo. Ele estava concentrado no próprio celular, com o rosto inexpressivo. Recolhi meu olhar e disse baixinho:
"Pode me deixar logo ali na frente. Hoje é meu aniversário e combinei de jantar com uma amiga."
Bernardo ergueu a cabeça e instruiu o motorista: "Encoste e deixe a senhora ali."
O motorista olhou pelo retrovisor com surpresa, parecendo querer dizer algo, mas obedeceu. Bernardo desligou o celular e se virou para mim:
"A Isadora precisa de mim para resolver um assunto. Sinto muito, mas você terá que pegar um táxi."
Fiquei estática. Então, ele não parou o carro porque eu pedi; ele parou porque viu a mensagem de Isadora e decidiu me deixar no meio do caminho. Não me surpreendeu ser ignorada por ele; eu já estava acostumada a ser tratada como fumaça. Mas, desta vez, em vez da velha tristeza, não senti nada.
Observei as luzes traseiras do carro sumirem na esquina, sacudi a neve dos ombros e chamei um táxi para o endereço que Bia enviou. Ela já me esperava na porta e me puxou para dentro animadamente.
"Este restaurante é quase impossível de conseguir mesa! Tive que reservar com um mês de antecedência", disse ela. "Se aquele seu marido imprestável se importasse um mínimo com você, conseguiria uma mesa em qualquer lugar e a qualquer hora usando o nome dele!"
Dei um sorriso amargo. "Mesmo que o sol nascesse no oeste, o Bernardo nunca me colocaria em seus pensamentos."
Assim que terminei a frase, ao dobrarmos um corredor, ouvimos uma voz familiar vindo de um reservado próximo:
"Bernardo, se a Clarice não existisse, você teria se casado comigo?"
Parei no lugar, prendendo a respiração. Era a voz de Isadora. Logo em seguida, ouvi a resposta rouca de Bernardo: "Sim."
Bia, indignada ao meu lado, fez menção de ir tirar satisfação, mas eu a segurei, balançando a cabeça negativamente. Se eu não tivesse implorado por aquele casamento devido ao compromisso de infância, eles realmente estariam casados.
A voz de Isadora soou novamente: "Bernardo, agora que eu me divorciei, você se divorciaria da Clarice por minha causa?"
Eu queria sair dali, mas meus pés pareciam fincados ao chão. Contei as batidas aceleradas do meu coração até ouvir a resposta dele.
"Não."
"Embora a Clarice seja ambiciosa e não tenha um caráter exemplar, eu me casei com ela. Não vou abandoná-la agora."
Aquelas palavras foram como mãos invisíveis apertando meu pescoço; eu mal conseguia respirar. Eu sabia que ele me desprezava, mas não imaginava que falaria de mim daquela forma para outra pessoa.
Virei-me e saí do restaurante. Quando o vento frio bateu em meu rosto, percebi que ele estava molhado. Bia correu atrás de mim, abraçando meus ombros.
"Clarinha, não fique assim. Não vamos mais passar o aniversário aqui, vou te levar para um lugar muito melhor!"
Ainda furiosa, ela acrescentou: "Aquele idiota do Bernardo ainda vai se arrepender amargamente!"
Apertei minha bolsa e balancei a cabeça. "Não importa mais." Limpei as lágrimas e forcei um sorriso, tirando o acordo de divórcio da bolsa e mostrando a ela.
"Sabe o que eu realmente quero de aniversário? Que o lugar da comemoração seja o cartório. Venha comigo registrar o divórcio."
Bia me levou imediatamente. Entrei sozinha no salão de atendimento. Como o acordo já estava assinado e eu não exigi nenhum bem da família Bernardo, o processo foi rápido.
"Dona Clarice, seu registro de divórcio foi inserido no sistema. Entraremos em contato quando a certidão estiver pronta."
Saí do prédio segurando o comprovante do registro, pronta para encontrar Bia. No entanto, assim que cheguei à porta, dei de cara com Bernardo.