Eu não era a esposa que Bernardo desejava; não era digna de participar de sua vida. Também não tinha o direito de compartilhar nada com ele. Essa foi a lição que Bernardo me ensinou através da sua indiferença.
Por isso, mesmo durante os anos em que ele esteve no exterior, nunca mais coloquei os pés em seu escritório. Bernardo, claramente, havia se esquecido do que aconteceu há três anos.
Ele pigarreou levemente. "Sinto muito pelo que houve antes. Eu estava descontando minhas frustrações em você, não leve a mal."
Olhei para ele com hesitação. Aquela era a primeira vez, desde o nosso casamento, que eu sentia uma comunicação de igual para igual na família Bernardo. Infelizmente, era tarde demais. Contive minhas emoções e apenas esbocei um sorriso vago.
Bernardo assentiu e mudou de assunto.
"Gostou do broche de papagaio que te dei? É o lançamento mais recente da Joalheria Bernardo, simboliza amor e liberdade."
O sorriso em meus lábios murchou. Bernardo havia se esquecido de novo que eu quase fiquei cega quando o periquito-de-colar de Isadora tentou bicar meus olhos. Eu não gostava de papagaios. E, na família Bernardo, eu não tinha nem amor, nem liberdade.
Ainda assim, agradeci a ele calmamente. Bernardo pareceu satisfeito com a minha reação e tomou a iniciativa de perguntar sobre o título do desenho.
"Amor Materno", respondi, observando a neve lá fora com um olhar distante. "Retratei o cuidado e o amor de uma mãe por seu filho."
Era também... o amor que eu nunca mais teria nesta vida. Eu não tinha mais a minha mãe. Sempre que Dona Helena me impunha regras exaustivas e eu não aguentava mais, criava um design para aliviar o estresse. Por isso, a maioria das minhas criações era ligada à figura materna.
Bernardo me encarou por alguns segundos com um olhar profundo. Em seguida, recolheu o desenho.
"O conceito é bom. Vou pedir à empresa que o produza, para que seu esforço não seja em vão e o desenho não fique guardado sem utilidade."
Fiquei sem palavras. Apenas observei suas costas enquanto ele se afastava e peguei o celular para mandar uma mensagem para Bia.
【O Bernardo levou o design que acabei de terminar.】
Bia respondeu com um emoji de choque. 【Ele tem noção de que um desenho seu vale dezenas de milhões? Ele pagou por isso?】
Dei um sorriso amargo e digitei na tela: 【Vou dar um jeito de desenhar outro para você o quanto antes.】
Quando terminei de me organizar e voltei para o quarto, Bernardo estava encostado na cabeceira da cama lendo um livro. Seu pijama de seda cinza escuro estava com a gola bem aberta, revelando sutilmente seus músculos definidos. Ao me ver chegar, ele levantou uma ponta do edredom e deu tapinhas no lugar ao seu lado.
"Já faz três anos que nos casamos. Realmente está na hora de termos um filho."
Fiquei estática. No passado, sempre que tínhamos relações, ele fazia questão de usar proteção. Eu já havia aceitado que ele me desprezava e que nunca permitiria que eu carregasse um filho seu. Agora que estávamos prestes a nos divorciar, ele vinha falar em bebês? O que ele estava pensando?
Antes que eu pudesse processar a informação, Bernardo me puxou para a cama, e seu corpo robusto se posicionou sobre o meu.
"Por que está aérea? Ficou magoada de novo?"
"Eu não disse para falar diretamente o que quer? Não precisa usar um desenho para me dizer, de forma indireta, que quer ser mãe."
Meu coração sentiu como se um balde de água gelada tivesse sido despejado sobre ele. Então, na cabeça de Bernardo, meu desenho chamado "Amor Materno" era uma indireta para dizer que eu queria um filho?
Fechei os punhos e recusei rigidamente. "Sinto muito, não estou me sentindo bem hoje."
A respiração em meu ouvido parou por um instante. Bernardo ergueu o rosto, e pude ver o desejo ainda presente em seus olhos. De repente, percebi que ele não era tão inalcançável quanto eu imaginava; era apenas um homem comum. Mesmo sem me amar, ele ainda podia sentir desejo por mim.
"Descanse. Vou tomar um banho."
"Está bem."
Aquelas foram as últimas palavras da noite. Depois disso, Bernardo não voltou ao quarto.
Na manhã seguinte, porém, ele se ofereceu para me levar de carro até a mansão da família. Olhei para os flocos de neve caindo lá fora, pensando em como Dona Helena era difícil — uma mulher mais fria que o próprio inverno. Inconscientemente, comecei a puxar a ponta da minha blusa, até que senti um calor cobrindo o dorso da minha mão.
Virei o rosto e vi que Bernardo segurava minha mão, olhando para mim com uma expressão serena.
"Minha mãe foi muito mimada pelos meus avós e tem um gênio difícil. Se algo acontecer, tente ter paciência; afinal, ela é uma senhora."
Não respondi, apenas assenti por educação. Naqueles três anos, eu já tinha tido paciência mais do que suficiente. Mas hoje eu estava lá para buscar o acordo de divórcio com Dona Helena; de agora em diante, eu não precisaria mais suportar nada.
Ao chegarmos à mansão, Bernardo recebeu uma ligação e saiu às pressas. O mordomo, seguindo o costume, trouxe-me uma xícara de chá fervendo. Em todas as outras vezes, eu era obrigada a segurá-la até que minhas mãos ficassem dormentes pelo calor. Só quando o chá amornava é que eu podia servi-lo a Dona Helena, tratando-a como uma criada faria:
"Dona Helena, por favor, aceite o chá."
Se eu deixasse cair por acidente, haveria uma xícara após a outra esperando por mim. Esse ritual do chá acontecia em todas as minhas visitas. E essa era apenas a mais simples das 88 regras.
Mas hoje, nem sequer olhei para a xícara. Mantive a postura ereta, caminhei até Dona Helena e disse:
"Dona Helena, nós combinamos que eu e Bernardo nos divorciaríamos após três anos de casamento. Estou aqui hoje para cumprir essa promessa."
"Por favor, entregue-me o Acordo de Divórcio que assinamos há três anos."