《Casamento por Contrato, Coração em Liberdade》Capítulo 2

Fechei a caixa de veludo do presente. Massageei as têmporas, tentando reprimir a sensação de sufocamento e o cansaço que me abatiam. Na próxima vez que fosse à mansão da família, falaria com Dona Helena sobre o acordo de divórcio.

Normalmente, eu não ousava colocar os pés na residência dos Bernardo sem um motivo urgente. Ninguém na família gostava de mim, e Dona Helena era especialmente difícil de agradar. Ela havia estabelecido sozinha 88 regras domésticas; cada visita àquela casa era como perder uma camada de pele de tanto estresse.

Enquanto esses pensamentos me rodeavam, o telefone tocou. Era Bia, minha melhor amiga. Assim que atendi, ouvi sua voz entusiasmada me dando os parabéns.

"Tenho ótimas notícias! Aquela sua série de joias, a 'Amor Materno', foi arrematada por uma empresa de Milão por trinta milhões!"

"Ah, e tem mais: o Grupo de Joalheria Bernardo, que pertence ao seu marido, mandou representantes me procurarem várias vezes. Eles querem desesperadamente contratar a misteriosa e talentosa designer 'Sereia' como Designer-Chefe."

"Diga-me... se o Bernardo soubesse que a designer estrela que ele tanto cobiça para a empresa é a própria esposa, que cara ele faria?"

Ouvindo o tom alegre de Bia, deixei escapar um sorriso contido. Bia era uma renomada agente de design. Logo após o casamento, quando eu estava prestes a entrar em depressão devido às torturas psicológicas das regras de Dona Helena, foi ela quem me incentivou a retomar os pincéis. Nos últimos dois anos, meus desenhos ganharam reconhecimento e, vendendo meus projetos, consegui quitar todas as dívidas da minha família.

Respirei fundo, tentando manter a voz leve. "O que o Bernardo pensa não importa. Vou terminar os novos esboços o mais rápido possível e te envio."

Bia pareceu notar algo. "Sua voz parece tão exausta..."

De repente, ela começou a protestar por mim: "Aquele cafajeste do Bernardo te esgotou ontem à noite, não foi? Homem egoísta, só pensa no próprio prazer e não tem um pingo de consideração por você! Não me diga que vai ter que ir ao hospital de novo?"

Senti um constrangimento imediato e inventei uma desculpa para desligar. Minha origem familiar não combinava com a dele, e parecia que nossos corpos também não tinham sintonia. Na noite de núpcias, a única coisa que senti foi dor.

A vez mais grave foi quando a notícia do casamento de Isadora chegou ao país. Bernardo foi implacável naquela noite, descontando suas frustrações em mim com uma intensidade avassaladora. No dia seguinte, tive que ir ao hospital. O médico disse que havia lacerações e me aconselhou a pedir que meu marido fosse mais carinhoso.

Mas, sem amor, como poderia haver carinho?

Fechei os olhos, e uma onda de amargura me envolveu. No fundo, Bernardo nunca se casou comigo por amor. E eu, ao me casar com ele, consegui salvar as vidas da minha avó e do meu irmão Gabriel. No fim das contas, não se pode ter tudo na vida.

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Recuperei a compostura, peguei minha prancheta e me sentei à penteadeira para desenhar. Somente quando estava criando é que meu coração encontrava um instante de paz. O som do grafite deslizando pelo papel me fez perder a noção do tempo.

Quando estava prestes a assinar o pseudônimo "Sereia" no canto do desenho, ouvi a voz fria de Bernardo logo atrás de mim.

"Este desenho está muito bom."

Só então percebi que ele havia voltado. Ele se inclinou para observar o papel, sua voz soando quase rente ao meu ouvido. Senti um leve aroma de álcool em seu hálito. Desde que nos casamos, exceto quando estávamos na cama, nunca estivemos tão próximos.

Senti-me desconfortável e tentei me levantar, mas Bernardo pousou a mão suavemente em meu ombro, mantendo-me sentada. O calor da palma de sua mão enviou um choque pelo meu corpo, e ambos hesitamos por uma fração de segundo.

"Quando você chegou?", perguntei.

Bernardo não respondeu. Pegou o desenho, e seus olhos mostraram um raro brilho de aprovação.

"A joalheria é o principal negócio da nossa família e líder global. Como a Senhora Bernardo, é bom que você não seja uma completa leiga no assunto."

"Quando você chegou à nossa família, não entendia nada. Ver que agora consegue fazer um esboço desses mostra que você se esforçou bastante enquanto eu estive fora nestes três anos."

Aquele elogio me cortou como uma faca. Se Bernardo tivesse se importado comigo o mínimo que fosse, saberia que minha formação universitária era justamente Design de Joias. Eu não desenhava para agradá-lo, nem para entender os negócios dele. Se meus pais não tivessem morrido e a empresa não tivesse falido, eu estaria no exterior estudando design em nível avançado.

Mas não me dei ao trabalho de explicar. Tanto Bernardo quanto Dona Helena me olhavam através de lentes de preconceito, vendo-me como alguém inútil. Acreditavam que eu forcei o casamento por vaidade e ganância, e que era meu dever tentar impressioná-los. Eu já estava habituada a isso.

Bernardo admirou o desenho por mais um tempo e, notando meu silêncio, perguntou casualmente: "Por que não usa o escritório para desenhar?"

Olhei para ele, sentindo uma nova pontada de dor em meu coração já calejado. Esbocei um sorriso leve e disse pausadamente:

"Você se esqueceu? No segundo dia do nosso casamento, eu quis usar o escritório para enviar um e-mail. E você me disse que o escritório não era lugar para eu tramar meus planos ambiciosos, e me proibiu de chegar perto de lá."

Bernardo nasceu em berço de ouro, um homem impecável, cujas boas maneiras e etiquetas estavam entranhadas em seus ossos. Mesmo quando estava zangado, ele mantinha a calma e nunca perdia a compostura.

E foi exatamente essa postura indiferente que, naquele dia, esmagou completamente o que restava da minha dignidade.

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