A chuva intensificou-se, lavando o sangue que manchava as mãos de Bernardo. Mas, ao mesmo tempo, a tempestade encharcou seu corpo por inteiro.
Ele lançou um último olhar para Melissa; com exceção do rosto, o corpo dela estava coberto de marcas de mordidas e feridas horríveis.
O sangue no chão já escorria até os seus pés.
Com uma determinação gélida, ele subiu no carro. O contraste entre o vento frio lá fora e o abafamento do veículo o fazia sentir-se mal, com o rosto ostentando um rubor febril anormal.
Mesmo assim, Bernardo deu a partida e acelerou loucamente de volta ao templo.
No rádio, ele colocou novamente aquela cantiga de ninar, a favorita de Soraia.
Ao chegar, Bernardo procurou o abade. A autópsia já havia sido concluída.
O legista entregou-lhe o relatório detalhado com a causa e a natureza de cada ferimento. Bernardo pegou os documentos e começou a ler, um por um.
Aquelas marcas que ele sempre temera encarar estavam ali, listadas friamente:
Choques elétricos, arrastamento, humilhações, chicotadas, danos pelo transplante de pele, hematomas por espancamento...
Eram registros demais.
— Você ainda quer vê-la? — perguntou o abade ao seu lado. Mesmo sem ler o relatório, ele sabia, pelo número de páginas impressas, o quão terrível era o conteúdo. Aquilo não era apenas papel pesado; era o peso de anos de agonia de uma moça indefesa.
— Minha vida já pertencia a ela desde o início — respondeu Bernardo com um sorriso amargo, ordenando que seus homens preparassem os equipamentos necessários.
Ele se trancou em um pequeno cômodo com os documentos e um notebook antigo, cruzando as informações do relatório com os vídeos que recuperara.
Bernardo não queria que mais ninguém visse aquelas imagens.
Ele analisava cada registro; embora o rosto de Soraia estivesse borrado em alguns vídeos, os sons eram suficientes para fazer o couro cabeludo formigar e o corpo enregelar de horror.
Aqueles animais!
Bernardo viu quando negavam comida a ela, deixando suas mãos tão magras quanto gravetos secos.
Viu como gargalhavam enquanto a arrastavam repetidamente pelos corredores.
Viu Soraia passar do estágio de gritos e prantos para uma apatia absoluta, onde quase não reagia mais a nenhum castigo físico.
Ele viu até mesmo o que aconteceu naquele quartinho com aqueles homens — atos de uma bestialidade sem nome. Sujeira, náusea e uma tortura que lembrava a "morte por mil cortes" da antiguidade.
Bernardo sentiu o desespero dela em sua própria pele; o ar parecia faltar em seus pulmões, e ele apertou as pontas dos dedos com tanta força que marcas de sangue surgiram sob suas unhas.
Ele se odiava. Naquele momento, não havia ninguém que ele odiasse mais do que a si próprio.
Ao cair da tarde, tudo estava pronto. Simular os choques, a fome, o arrastamento e as chicotadas era a parte "fácil".
Somente a parte das violações era um assunto que ninguém ousava tocar.
De qualquer forma, só com os primeiros itens, ninguém sabia quanto tempo um homem comum aguentaria.
— Sr. Peixoto, não quer tratar os ferimentos nas mãos primeiro? — perguntou um subordinado. — Não é necessário.
Dito isso, Bernardo sentou-se na cadeira de eletrochoque. Sua pele já queimava de febre. — Chefe, tem certeza disso? O senhor está fervendo de febre agora... — Comecem.
Bernardo estava irredutível.
A alma de Soraia observava tudo em silêncio e flutuou até ficar bem à frente dele.
Ela encarava Bernardo com frieza, tentando decifrar o que mais restava naquele semblante.
— Soraia.
A alma de Soraia estacou. De tão perto, ela teve a impressão de que os olhos dele realmente a enxergavam.
Em meio ao som da chuva, Bernardo sussurrou: — Me perdoe. O tio não soube te proteger.
Os olhos da alma de Soraia tremeram levemente por um instante, mas ela desviou o rosto.
A chuva lá fora tornou-se ainda mais violenta, castigando o mundo com fúria.