Melissa não tinha mais para onde recuar. Jamais imaginou que Bernardo escolheria um lugar como aquele: um vilarejo abandonado, decrépito e completamente isolado.
Ela estava encurralada entre três paredes, e a única casa próxima tinha a porta trancada por correntes.
O caminho até ali fora deserto e a estrada, extremamente acidentada.
As construções pareciam condenadas à demolição, com muros rompidos e um cheiro insuportável de poeira e mofo impregnando o ar.
Bernardo, no entanto, parecia imune à sujeira.
Ele observava Melissa encolhida no canto enquanto, com naturalidade, pegava uma vassoura de madeira de cerca de um metro em um canto próximo.
Ele a ergueu lentamente, olhando para o objeto com uma nostalgia sombria:
— Este foi o primeiro lugar para onde trouxe a Soraia. Ela ficou aqui por apenas um dia. — Ela, assim como você, não suportava essa poeira. Implorou para que eu a levasse embora, dizendo que tinha medo dos cachorros daqui. Então, eu a tirei deste lugar. — Mas agora... eu quero deixar você aqui.
Ao dizer isso, Bernardo colocou os dedos na boca e soltou um assobio estridente.
Em resposta, surgiram vários cães velhos, tão magros que se via apenas pele e osso.
Eles olhavam para Melissa como se estivessem diante de uma presa.
— Bernardo! Você enlouqueceu? — Eu... não é o que estou pensando, certo? Você não seria tão cruel...
Melissa balbuciava, movendo os pés em pânico, tentando se encolher o máximo possível.
Ela estava tão aterrorizada que não ousava olhar para os animais, e sua voz tremia de forma incontrolável.
— Eu nunca disse que era um homem bom.
Dito isso, Bernardo brandiu a vassoura com ferocidade, desferindo golpes diretos contra Melissa.
Cada pancada a fazia gritar de dor, pois o cabo de madeira, impulsionado pela força descomunal dele, atingia a carne sem piedade ou pausa.
Ele golpeava repetidamente os mesmos pontos, deixando as pernas de Melissa cobertas de hematomas arroxeados e estrias de sangue.
Como uma herdeira de pele delicada, ela logo se desfez em um choro convulsivo, incapaz de se proteger. Ofegante de dor, ela implorava:
— Eu errei! Eu errei! Pare, por favor!
Mas Bernardo não parou. Só interrompeu os golpes quando viu que Melissa perdera todas as forças e não conseguia mais sequer articular palavras.
Soraia via tudo. Ela sabia que Bernardo não era um "bom homem"; caso contrário, não teria alcançado o poder e o status que possuía.
Alguém capaz de lhe dar cinquenta chicotadas sem hesitar e de incendiar um instituto inteiro não era um santo. Esse era o capital que ele construíra em anos de luta.
Contudo, ao olhar para Melissa, Soraia sentiu um lampejo de piedade.
Mas, no segundo seguinte, um novo assobio de Bernardo fez os cães avançarem.
Os sons de mordidas e os gritos agônicos logo se misturaram em um coro macabro.
Soraia desviou o olhar; Bernardo há muito perdera a sanidade.
Ele largou a vassoura e, com o olhar vago, começou a caminhar apoiando-se na parede. Cada passo parecia pesar toneladas.
Embora tivesse acabado de demonstrar aquela força brutal, seu semblante estava terrivelmente abatido.
Foi então que Soraia notou a mão dele: a pele queimada estava em carne viva, vertendo sangue.
Um rastro vermelho ficou marcado na parede cinzenta enquanto ele se arrastava.
"Tio, e se alguém me maltratar, o que eu faço?"
"Então você bate de volta."
"Mas eu não sei bater nas pessoas."
"Então avance e morda! Como um cão de caça. Aconteça o que acontecer, nunca aceite ser injustiçada."
"Nossa Pequena nunca mais passará por humilhações."
Soraia lembrou-se dessas palavras que ele lhe dissera no passado enquanto observava o Bernardo atual, ofegante e sem forças, escorado no muro.
Por algum motivo, ela sentiu uma tristeza repentina.
A chuva começou a cair suavemente, gotejando sobre a terra seca. Bernardo ergueu o rosto para o céu e, subitamente, começou a rir.
— Pequena... sinto sua falta.
A alma de Soraia, flutuando, não retribuiu o olhar. Ela apenas desejava que tudo aquilo terminasse logo; não queria mais recordar nada.