Bernardo acabara de receber o retorno dos legistas e, ansioso, preparava-se para levá-los ao pequeno quarto onde repousava o corpo de Soraia. No entanto, Melissa bloqueou seu caminho.
— Bernardo, eu preciso falar com você.
Sem suspeitar de nada, ele virou-se para a equipe médica: — Vocês podem ir na frente... — Não! — gritou Melissa, interrompendo-o bruscamente. — Se ela passar por uma autópsia, não poderá transcender. Mesmo sabendo disso, você vai insistir, Bernardo?
Bernardo sentiu algo estranho no ar. Parecia que Melissa o estava conduzindo deliberadamente para longe de um ponto específico. — O abade parece ter conversado bastante com você — retrucou ele.
Ao dizer isso, notou que o rosto de Melissa empalideceu visivelmente. A desconfiança de Bernardo atingiu o ápice; ele a empurrou para o lado e começou a correr desesperadamente. Sem entender o que estava acontecendo, os legistas apenas o seguiram.
Ao virar o corredor, Bernardo deparou-se com labaredas saindo do quartinho. Uma fumaça densa escapava pela janela, e ele deu de cara com o abade na porta. — Saia da frente! — rugiu Bernardo, empurrando o monge e arrombando a porta com um chute.
Lá dentro, um homem robusto alimentava as chamas com um isqueiro. Bernardo avançou com um chute certeiro, derrubando o homem e o isqueiro no chão. Ao lado, o lençol que envolvia Soraia já estava em chamas, e o fogo crescia rapidamente, prestes a atingir a pele dela.
Bernardo arrancou o corpo do meio do fogo. As chamas lamberam suas mãos, mas ele cerrou os dentes e suportou a agonia até colocar Soraia em segurança no chão do lado de fora. Só então ele olhou para as próprias mãos.
O fogo havia consumido uma camada da pele de Bernardo em segundos; a carne viva sibilava e soltava fumaça, exalando um cheiro terrível de queimado. — Ah! — O grito de dor escapou quando o choque passou. Felizmente, um dos legistas agiu rápido, pegando água de um pequeno lago artificial próximo e despejando sobre as mãos dele.
O frio da água extinguiu o calor residual, trazendo um alívio momentâneo, mas Bernardo não se importou com os próprios ferimentos. Ele se ajoelhou e abraçou o corpo de Soraia. — Minha pequena... você se machucou? Mas Soraia era apenas um cadáver; não havia resposta.
Ele começou a examiná-la freneticamente, tomado por uma mistura de pânico, remorso e auto-aversão: — De novo... fui eu de novo! Me perdoe.
A alma de Soraia, flutuando ali perto, suspirou ao ver as mãos em carne viva de Bernardo. Uma brisa leve soprou, e o abade subitamente ergueu a cabeça, olhando exatamente na direção de onde Soraia estava. Ele murmurou para si mesmo: — Então é verdade...
Bernardo, transbordando fúria, encarou o abade com um tom gélido: — Mestre, o que exatamente está acontecendo aqui?
O abade, fechando os olhos e tremendo, começou a relatar a verdade. À medida que ouvia, o semblante de Bernardo tornava-se cada vez mais sombrio. — Aquela senhora investigou a vida de todos neste templo. Nós não tememos a morte, mas nossas famílias são inocentes — explicou o monge. — Embora tenha sido uma mentira para encobrir o crime, o fim não seria ruim... a cremação é o destino final de qualquer corpo, ele não duraria para sempre.
O abade olhou mais uma vez para onde a alma de Soraia flutuava e acrescentou: — Mas o Mantra do Renascimento não era falso.
— Melissa! — O nome saltou dos lábios de Bernardo como brasas vivas. Suas sobrancelhas estavam unidas em um vinco de ódio puro.
Nesse exato momento, seu celular tocou. — Chefe, descobrimos. O incêndio na villa... foi obra da Srta. Melissa.