Ao chegar ao templo, Bernardo deparou-se com Melissa ajoelhada no centro do salão, recitando sutras fervorosamente.
— O que você está fazendo aqui? — A voz dele cortou o silêncio, carregada de hostilidade. Ele já tinha certeza de que o sumiço do corpo de Soraia era obra dela. — Onde ela está?
Melissa não respondeu de imediato. Continuou sua prece, as palavras fluindo em um sussurro rítmico e obsessivo.
Impaciente, Bernardo agarrou-a pelo braço e a forçou a levantar. Só então ela parou, encarando-o com um olhar transbordando sarcasmo:
— Bernardo Peixoto, no fundo do seu coração, ela era realmente apenas uma "criança" para você?
— Agora, só porque eu a escondi de você por um momento, você fica nesse estado de nervos, a ponto de esmagar o meu braço.
As palavras dela o deixaram mudo. Ele olhou para a própria mão, que apertava o braço de Melissa com uma força brutal.
— Veja só, Bernardo. Você é muito mais repugnante do que eu imaginava. Eu fui apenas um escudo o tempo todo. Quem você sempre amou foi a Soraia!
— Ela é dez anos mais nova que você! Você é exatamente o tipo de "animal" que costuma desprezar.
Ouvindo as acusações de Melissa, a névoa que pairava sobre o coração de Bernardo pareceu se dissipar por um instante.
Até então, ele apenas sentia que não podia perdê-la, mas Melissa acabara de rasgar a máscara que ele usara por tanto tempo.
— Você se lembra de como nos conhecemos? Foi em um banquete. Você disse que meu vestido era lindo. Achei que fosse apenas um galanteio... mas no armário da Soraia existe um vestido idêntico, não existe? E muitos outros. Tantos que me fizeram transbordar de inveja.
— Você provavelmente nem percebe o seu próprio olhar. O jeito que você olha para ela me dá náuseas. Mas Bernardo... era comigo que você ia se casar, não era?
Melissa soluçou, buscando desesperadamente uma resposta definitiva.
— Por que você foi capaz de arrancar a pele dela por minha causa e ignorar quando ela foi humilhada por aqueles mendigos... mas agora não quer mais se casar comigo? Eu não fiz nada de errado!
A mulher diante dele era um mar de lágrimas, uma figura deplorável que quase o deixou sem palavras.
No entanto, ele apertou ainda mais o braço dela antes de empurrá-la com violência:
— Sim! Eu sou um animal! Então, onde ela está? Se acontecer qualquer coisa com o corpo dela, eu juro que acabo com você.
Ao ouvir a confissão direta de Bernardo, um brilho sinistro passou pelos olhos de Melissa. Escondendo sua dor, ela virou-se para o abade que observava a distância.
— Fiel, se a recitação for interrompida, deve começar do zero, ou não terá efeito — disse o monge, aproximando-se de Bernardo. — Esta senhora deixou algo sob minha guarda. Pode me acompanhar.
Bernardo praticamente arrastou o abade para fora, sem lançar um único olhar para trás.
Melissa, por sua vez, voltou a recitar os sutras com uma seriedade aterradora, o rosto pálido e os lábios tremendo.
Enquanto isso, a alma de Soraia flutuava ao lado do ouvido de Melissa, soprando uma brisa gélida.
O frio súbito fez o terror de Melissa crescer:
— Eu já estou rezando por você! Pare de me perseguir nos meus sonhos! Este é o Mantra do Renascimento, ele vai funcionar para você... Por favor, vá embora!
Soraia parecia não ouvir. Continuou soprando o ar gelado, observando Melissa prostrar-se repetidamente no chão, consumida pelo medo.
Do outro lado, ao finalmente encontrar o corpo de Soraia, Bernardo sentiu um alívio momentâneo.
Ele se preparou para retirar o corpo dali, mas assim que tocou a esteira de bambu que o cobria, sua mão foi atingida pelo cajado do abade.
— Ela não consegue descansar em paz... e a culpa é toda sua!
Aquelas palavras cravaram Bernardo Peixoto no chão, como se fossem pregos em sua alma.