Bernardo observava a fúria das chamas diante de si, e a imagem do fogo o fez recordar instantaneamente do incêndio na villa ocorrido tempos atrás.
Uma inquietação sombria começou a brotar em seu peito, levando-o a ligar para o legista, mas a chamada não foi atendida de imediato.
Ele mudou a rota do GPS em direção à área das vilas.
Ao dar a partida, o sistema de som do carro começou a tocar uma melodia cujas primeiras notas foram reconhecidas instantaneamente pela alma de Soraia.
Era a cantiga de ninar que Bernardo cantava para acalmá-la quando ela era criança.
Bernardo sempre fora desafinado, mas sua voz era grave e reconfortante, transmitindo-lhe uma segurança absoluta.
Fora justamente esse calor oferecido por ele durante tantos anos que fizera Soraia confundir os sentimentos e se entregar àquela ilusão, acreditando que poderiam ficar juntos para sempre.
Envolvida pela canção, ela finalmente encontrou um momento de paz e, pesadamente, fechou os olhos espirituais.
Nesse momento, o celular de Bernardo tocou.
Era Melissa. Ele atendeu com indiferença: — Alô. — Bernardo, eu escolhi um cemitério excelente para a Soraia. Você não quer vir dar uma olhada comigo?
Ouvir o nome de Soraia vindo daquela boca era insuportável para ele. Bernardo franziu o cenho e respondeu com rispidez:
— Não precisa se preocupar com isso.
Ele desligou na cara dela e ignorou as chamadas subsequentes.
Do outro lado, Melissa exibia um sorriso gélido enquanto ordenava aos seus capangas:
— Sejam rápidos com isso!
À frente dela estava o cadáver de Soraia.
Alguns homens corpulentos arrastavam o corpo para dentro de um pequeno cômodo.
Melissa entregou-lhes um maço de dinheiro e acenou para que partissem.
Nesse ínterim, o legista finalmente retornou a ligação de Bernardo:
— Sr. Peixoto, o corpo foi levado. Fomos dopados e não vimos quem foi.
O pânico atingiu Bernardo como um soco:
— Espere por mim, estou indo agora mesmo!
Ele girava o volante com violência, buzinando freneticamente, sentindo uma fúria que o fazia querer voar sobre os outros carros.
Ele acelerou ao máximo, realizando manobras arriscadas que assustavam os pedestres. Ao chegar ao necrotério, ele praticamente arrombou a porta.
Ao ver a sala vazia, o coração de Bernardo pareceu despencar em um abismo.
— Já descobriram algo? — As câmeras daqui foram manipuladas. Estamos tentando rastrear as câmeras das ruas próximas.
Bernardo cerrou os punhos e golpeou a parede com força, tentando recuperar a calma.
Seu rosto ainda estava inchado pelas bofetadas que dera em si mesmo, e sua sanidade estava no limite. Ele pensou em Melissa:
Aquele telefonema teria sido apenas uma coincidência?
Recordando o incêndio na villa, ele começou a ligar os pontos.
Tentou retornar para Melissa, mas a linha dava ocupada.
Ele agarrou o colarinho de um segurança e sussurrou uma ordem direta: investigar imediatamente a verdade sobre o incêndio na villa.
Em seguida, fez outra ligação influente. Usando um terreno valioso como moeda de troca, ele conseguiu mobilizar uma equipe extra para analisar as câmeras da cidade.
Após três minutos de agonia, ele finalmente obteve a localização exata de Soraia.
Assim que ouviu o endereço, Bernardo partiu em disparada.
O legista, observando os registros da autópsia interrompida, soltou um longo suspiro. Ele nunca vira uma jovem com tantas cicatrizes e uma morte tão trágica.
Para uma vida assim
, pensou ele,
a morte talvez seja o único alívio.
Enquanto isso, na estrada, Bernardo olhou para o endereço no GPS e ficou atônito.
O destino era um
templo budista
.