Até a mais profunda ternura tem o seu fim.
Após passar a noite inteira abraçado ao corpo gélido de Soraia, os lábios de Bernardo estavam arroxeados pelo frio e seu semblante era assustadoramente abatido.
Ele saiu para fazer uma higiene rápida e logo começou a fazer ligações.
Durante aquelas horas de vigília, ele rememorou a origem de toda essa tragédia: o Instituto Santa Marina.
Ele estava decidido a investigar a verdade pessoalmente.
Antes de partir, Bernardo trouxe os legistas de volta. Olhando para Soraia deitada na mesa de metal, ele não conseguiu esconder a dor em sua voz:
— Por favor, façam um exame minucioso. Quero saber a origem de cada cicatriz, por menor que seja.
Os legistas assentiram, trocando olhares cautelosos.
Ao sair do hospital e sentir o calor do sol, Bernardo sentiu a garganta apertar:
Soraia, eu vou descobrir tudo. Cada ferimento que você sofreu será devolvido a eles mil vezes pior.
Soraia, agora em sua forma espiritual, seguiu Bernardo até o carro.
Ela o viu abrir os contatos e selecionar o número do responsável pelo Instituto Santa Marina.
Foi então que ela viu como ele a tinha salva em sua agenda:
"Princesa Soraia"
. Ela achava que ele já tivesse mudado aquele nome há muito tempo.
Durante todo o trajeto, Bernardo permaneceu em um silêncio sepulcral.
Ao entrar no Instituto Santa Marina, Soraia sentiu um pavor tão grande que não queria descer do carro, mas sua curiosidade sobre o que ele faria ali a impulsionou.
Ela flutuou até os ombros de Bernardo, sentando-se ali de costas para o prédio, buscando algum conforto na presença dele.
Bernardo, sem perceber a presença dela, caminhou a passos largos para dentro da instituição. Ao olhar ao redor, ele finalmente notou as anomalias.
Todos os estudantes tinham rostos pálidos e doentios, com olhares vazios. Ao verem um estranho, eles se encolhiam contra as paredes ou fugiam para se esconder.
Quando ele mesmo trouxera Soraia anos atrás, ele apenas avaliara a infraestrutura e a conversa dos professores; nunca prestara atenção nos alunos.
Bernardo lembrou-se do estado em que Soraia voltou para casa. Ele perdera a conta de quantas chicotadas dera nela naquela época.
Só lembrava das costas dela ensanguentadas e da poça de sangue que se formara no chão, chegando a tocar a sola de seus sapatos.
Naquele dia, ela mantivera a cabeça baixa, sem derramar uma lágrima ou pedir clemência.
Ao lembrar de quando a forçara a olhá-lo, ele percebeu que o olhar dela era idêntico ao daqueles alunos: oco e anestesiado.
A certeza da verdade o atingiu com violência.
Ao entrar no escritório e ver o sorriso bajulador do diretor, a fúria de Bernardo explodiu. Ele avançou e desferiu um tapa violento no rosto do homem:
— O que vocês fizeram com a Soraia?! — Falem!
O rugido fez a sala tremer. O diretor, com o olhar esquivo, tentou manter a fachada: — Sr. Peixoto, nós não fizemos nada... apenas seguimos as normas.
Bernardo sabia que eles não confessariam facilmente. Voltou-se para os seguranças que o acompanhavam: — Fiquem aqui e vigiem este homem.
O diretor entrou em pânico e agarrou o braço de Bernardo, com os olhos transbordando terror:
— Mas não foi o senhor quem disse que queria acabar com os sentimentos impróprios daquela menina? Nós usamos alguns "métodos", mas o senhor mesmo disse por telefone que os aceitaria, contanto que ela aprendesse a ter modos! — Por que quer investigar isso agora, Sr. Peixoto?
Enquanto o diretor falava com a voz trêmula, uma rajada de vento violenta entrou pela janela, soando como um lamento fúnebre.
O vento fustigou as janelas instáveis, batendo-as contra a parede com estrondo.
Aquele som de agonia rítmica era idêntico à frequência dos tremores da alma de Soraia.
Ela olhou para a janela horrorizada, até que o vento finalmente cessou.
Bernardo também foi pego de surpresa pela ventania, mas logo retomou o foco:
— Eu não disse que era para dar uma lição até que ela desistisse daquelas ideias? Eu disse para não a fazerem sofrer demais, que eu voltaria para buscá-la!
Na verdade, ele só se lembrara de dizer aquelas palavras cinco dias após tê-la deixado ali.
— Quando o senhor ligou para dizer isso... as "lições" já tinham começado... — a voz do diretor foi minguando até se tornar um sussurro inaudível.
Bernardo ouviu perfeitamente. Ele não podia mais esperar. Arrombou a porta e exigiu ir até a sala de monitoramento.
O diretor, sem saída diante de um homem cuja sanidade estava sendo consumida pela fúria, não teve escolha senão guiar o caminho, mantendo a cabeça baixa, temendo encarar os olhos escarlates de Bernardo Peixoto.